Já em O Papagaio de Céline (2014), o dramaturgo e encenador João Samões se abeirara do ideário iconoclasta e audacioso do escritor (e médico, soldado, viajante) francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), adaptando a sua revolucionária obra-prima Viagem ao Fim da Noite. Agora, a viagem imbrica-se e adensa-se ainda mais, uma vez que O Poeta Acorrentado à Mesa se inspira tanto na obra experimental e na mundivisão mordaz de Céline como na sua acidentada biografia, já o fértil terreno de base da sua torrencial escrita. Este é, em estreia, o segundo retrato de um tríptico (após Hotel Louisiana Quarto 58, tributo ao egípcio Albert Cossery, estreado e coproduzido pelo TNSJ em 2016), dedicado à “memória do espírito livre e libertário” de figuras cruciais da história da literatura mundial (sobre o americano/tangerino Paul Bowles se debruçará o terceiro tomo). O Poeta Acorrentado à Mesa retoma a interioridade da forma monologada para mais bem percorrer, iluminar e dialogar com os “rastos e restos” de Céline. No solo do ator Cláudio da Silva, de novo desafiado por João Samões a habitar a vertigem do universo do escritor, condensa-se a energia e poder transformadores das suas palavras, capazes de “fazer tremer toda a vida inteira”.