Em Bonecas, espetáculo em estreia, Ana Luena parte de um conto inédito de Afonso Cruz (Boneca de Papel, inspirado num episódio real ocorrido num orfanato feminino nos anos sessenta) e da “brutalidade bela” da pintura de Paula Rego para escrever uma dramaturgia em torno das noções de território, identidade e memória. No âmbito do programa da Malvada Associação Artística em torno de processos de desterritorialização por desvinculação e sobre o retrato, a encenadora integra igualmente em Bonecas a experiência partilhada com um grupo de raparigas de um centro de acolhimento temporário e um grupo de mulheres vítimas de violência doméstica de uma casa abrigo. A severidade e crueldade destes territórios femininos tornam as suas vítimas cativas da sua própria condição. Como num tableau vivant, as personagens de Bonecas expressam-se em relações dicotómicas de vulnerabilidade e força e numa inversão de papéis onde submissão e dominação se confundem. Cruzando exercícios de improvisação, criação de cenas, desenho de personagens, técnicas de role-play com fotografia, cria-se uma narrativa rizomática, “como um livro que cose diferentes cadernos numa só lombada”. Nessa “cartografia de multiplicidades” que o teatro e a fotografia oferecem, Bonecas trabalha possibilidades de reconstrução identitária, de reconhecimento e pertença.