Em estreia, Primavera Selvagem, espetáculo com encenação e cenografia de Jorge Pinto, assinala o reencontro do Ensemble com o prolífero dramaturgo inglês Arnold Wesker, após Cartas de Amor em Papel Azul (2005) e Quando Deus Quis um Filho (2006), encenados por Emília Silvestre e Carlos Pimenta, respetivamente. Autor multifacetado (escreveu também poesia, ensaio e literatura infantil), Wesker fez parte, com John Osborne, Harold Pinter e John Arden, de uma linhagem de dramaturgos que, no final dos anos 50 e na década de 1960, mudou a face do teatro inglês. Pioneiro na forma como dramatizou o mundo do trabalho, Arnold Wesker deu voz ao desencantamento político e social de um tempo (que é ainda o nosso) e ao modo como essa desilusão habita e mina um ambiente doméstico. Primavera Selvagem, “peça doméstica” de 1992, ao acompanhar a vida pessoal, profissional e relacional de Gertrude, atriz de sucesso mas insegura do seu talento, traz o universo do trabalho teatral para o centro da peça. Em Primavera Selvagem, o ofício da representação é explorado como uma metáfora das personae que construímos de nós próprios, essas falsas imagens com as quais nos apaixonamos, e nesse sentido faz-nos refletir sobre a vida como exercício de autoencenação.