Após uma temporada de sucesso, regressamos à música de Otelo e ao seu feitiço, conduzidos por Nuno Carinhas. Há algum tempo que a sua visão de encenador persegue uma dissolução plena da fronteira entre palco e plateia, mas talvez nunca como em Otelo, a sua segunda encenação de Shakespeare depois de Macbeth, ela se revele tão natural, fazendo do edifício do teatro um lugar de ação. Uma vez que, em Otelo, quando a história começa, já se está afinal perto do fim, Nuno Carinhas cavou nela espaço e tempo, e ofereceu-os às personagens, sobretudo a Otelo, Desdémona e Iago (e a nós, que os seguimos) e à beleza das suas palavras. Cúmplices e testemunhas da tragédia doméstica que cedo se desenha, somos lançados numa sucessão de palcos, cada vez mais claustrofóbica, que culmina nesse palco íntimo que é o quarto de dormir. As mortes em direto que aí presenciamos dizem-nos também respeito, a nós, seus espectadores implicados mas impotentes. Peça de múltiplos níveis, duplicidades e reflexos, é também, como frisou T.S. Eliot, sobre o nosso “bovarismo”, a forma falsa como às vezes nos encenamos, nos contamos a nós próprios e aos outros. E Nuno Carinhas faz eco desse desconforto de nos vermos assim ao espelho na estridente dissonância final de uma valsa.
