A companhia brasileira de teatro, pela mão do encenador Marcio Abreu, tem vindo a criar espetáculos instigantes, desafiando o público a abandonar uma postura de passividade. Em Preto, que olha para a vivência do racismo no Brasil para lhe revelar a sua dimensão universal, esse desafio é interno à própria dramaturgia. Logo pelo seu título, a peça reclama-se como lugar de fala da “pretura”, ao interrogar o poder do olhar branco (e masculino) e o branco estatuto do teatro. A partir de uma espécie de conferência/ato performativo de uma mulher/atriz/persona negra, ergue-se um mosaico de cenas que desvelam as estratégias, os posicionamentos ideológicos e os estereótipos do racismo. Esses jogos cénicos fazem Preto transitar entre as linguagens da performance, do musical, da dança, do cine-documentário, das artes visuais e da antropologia, potenciando o diálogo direto com o público. O desafio de Preto é o de investigar os mecanismos da recusa da diferença e o de propor uma revolucionária possibilidade de mudança: o tornar-se preto desde dentro, o enegrecer, o interpretar. “E o que fazer para que o enegrecimento seja cada vez maior, cada vez mais potente no lugar onde estamos?” A pergunta fica no ar, mas o microfone donde foi lançada fica virado para nós, espectadores.
