Na primeira vez que visitou Portugal, Romeo Castellucci trouxe ao PoNTI’97 um Hamlet – aliás, um Amleto – fragmentado, recriando, com um punhado de palavras, toda a sintomatologia de um paranoico e de um autista. O regresso do encenador italiano à programação do TNSJ, desta feita no âmbito da bienal BoCA, faz-se também sob o signo de William Shakespeare. Desengane-se, todavia, quem espera encontrar, no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória, uma incursão canónica na tragédia histórica Júlio César. Castellucci afirma respeitar os textos, e a sua veneração impele-o a talhar continuamente – no duplo sentido de golpear e de esculpir – os monumentos do património dramático universal. Revisitação de um espetáculo originalmente produzido em 1997, Júlio César – Peças Soltas é uma cirúrgica operação teatral sobre a tragédia de Shakespeare, as suas personagens, a sua fala: de um Júlio César velho e emudecido, que apenas pode discursar mediante gestos, a um Marco António que, após uma laringectomia, lança do esófago o seu apelo ao povo, os corpos da estatuária antiga são como que virados do avesso e os órgãos expostos, numa reflexão a um tempo solene e visceral sobre a mortalidade, o sentido, a retórica, o ritual. O que escondem as palavras, de onde emerge o seu poder?
