Novela publicada em 1880, O Mandarim ocupa um lugar à parte na obra de Eça de Queirós. Misto de farsa moralizante e sátira filosófica, o texto parece afastar-se de uma estética realista para fantasiar – até às últimas consequências – o paradoxo de Rousseau: na longínqua China, um endinheirado mandarim deixou testamento a favor de quem o matasse, o que pode realizar-se de um modo assaz singelo – premindo o pequeno botão de uma campainha em Paris. Como nunca o veremos, o mandarim não pode afetar-nos emocionalmente. Estaríamos dispostos a premir este botão e assim beneficiar de uma tão imensa fortuna? Seríamos – ou seremos – capazes de matar o mandarim? Depois de em 2013 nos ter proposto Os Negócios do Senhor Júlio César de Brecht, o Teatro Experimental do Porto encontra agora na narrativa fáustica de Eça de Queirós uma alegoria que lhe permite prosseguir a sua investigação teatral sobre os desastres europeus dos séculos XX e XXI, da Alemanha nazi à autofágica sociedade de consumo. Com adaptação de Rui Pina Coelho e encenação de Gonçalo Amorim, Nunca Mates o Mandarim endereça à sociedade contemporânea um comentário direto sob a forma de uma moralidade profana, plasticamente vibrante e musical.
qua 15 jun
Conversa com Nuno Carinhas após o espetáculo.