Para muitos, a obra-prima de Molière. Há quem garanta que prestamos um serviço ao dramaturgo apresentando-o como “o autor de O Misantropo”. Texto de especial subtileza e apuro formal, a peça que Molière estreou em 1666, há precisamente 350 anos, é uma grande comédia que talvez nos faça rir pouco (ou que converte o nosso riso num esgar estranho), apesar da impiedosa sátira que põe em movimento. No epicentro deste engenho dramático, encontramos Alceste, herói monomaníaco que tem apenas os defeitos decorrentes da sua qualidade – a exigência moral que o leva a odiar todos os homens e (singular contradição) a amar a mais frívola das criaturas. Um ano após a primeira incursão no teatro clássico francês (Britânico, de Racine), Nuno Cardoso abre em O Misantropo uma pista de dança retro para todos os vícios e iniquidades de um determinado corpo social, mas também para a fúria de Alceste, esse Quixote da sinceridade. O encenador conta com uma cúmplice equipa de criativos e intérpretes, para além de uma nova tradução de Alexandra Moreira da Silva, que, após as experiências de O Avarento (2009) e O Doente Imaginário (2012), prossegue a redescoberta, na nossa língua, das possibilidades performativas e simbólicas que habitam a obra desse “trágico comediógrafo do espírito” chamado Molière.