Um dia perdeu-se nas Montanhas Rochosas e comparou a experiência, terrível, à sensação de andar perdido no Monte Sinai. Talvez esse acidente biográfico tenha sido determinante na criação de Weisman e Cara Vermelha, um “western judeu”, género tão improvável quanto o duelo que aí se trava entre um índio e um judeu, duelo entre povos martirizados. George Tabori nasceu na Hungria em 1914, membro de uma família de intelectuais judeus, mas foi um perpétuo exilado, com referentes de várias culturas (alemã, inglesa e norte-americana). A memória do Holocausto é um tema recorrente na sua obra. Weisman e Cara Vermelha retoma o diálogo com essa ferida por cicatrizar, através de uma escrita que, nas palavras do encenador Fernando Mora Ramos, “vai directa à dor em chave humorada, polissémica e desperta, dizendo-nos: o quotidiano é de espessura tragicómica, os desaires e a morte têm cómico”. Com esta incursão no teatro politicamente incorrecto de Tabori, cumpre-se o primeiro momento do programa Teatro da Rainha x 2. A Estação Inexistente, com textos de Luigi Pirandello e Rocco D’Onghia, chega no início de Abril.
Excerto de “Um teatro das ideias, com muito humor”.
Sinais de Cena. N.º 9 (Jun. 2008). p. 88....
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O Teatro da Rainha propõe ao espectador uma leitura ao mesmo tempo política, ética e poética da obra de Tabori. Política, no desafio que encerra a delicada temática ideológica (no sentido de expressão de ideias) representada pelo drama do protagonista, o judeu americano Weisman (o homem branco), cujo caminho atravessa o de um representante típico de uma minoria, o (pseudo) índio chamado Cara Vermelha, com quem trava um derradeiro combate. Na verdade, o índio não o é: é Joe Cuaoléu, anti-semita e reparador de postes de electricidade no deserto, branco que traz no corpo um cosmético cor de cobre, que não consegue lavar sem ficar com a pele em carne viva, mas que lhe permitiu passar a noite, a salvo, num hotel de Albuquerque frequentado por Índios... Ética, na medida em que esse mesmo combate não opõe o bom e o mau como no
western, mas obriga o espectador a reconsiderar a personagem do pecador, a pôr em questão a bondade que estaria do outro lado, aquela que, como explica Tabori, leva Caim a aniquilar Abel por causa da insuportável bondade do irmão. Poética, no tratamento artístico dado à montagem do texto, na opção pelo aprofundamento das potencialidades teatrais de uma escrita e de uma dramaturgia que resultam, no espectáculo, num objecto visual largamente alimentado pelo universo de imagens nascidas da especificidade da experiência biográfica e literária do dramaturgo George Tabori.
Christine Zurbach
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