Libentíssimo (1999) e Libentíssimo 2 (2002), recitais satíricos de música e poesia, já nos tinham servido a exacta medida da verve de uma inesperada dupla criativa: Luís Bragança Gil e Luísa Costa Gomes. Como o próprio título indicia, ao alinhar três substantivos tão desirmanados, Deus. Pátria. Revolução. reincide no modo paródico. Nota de intenções? A recriação musical de um vasto repertório que marcou a ditadura salazarista e o período pós-revolucionário de Abril, recorrendo à remistura de hinos, marchas e canções portuguesas de cariz fascista, revolucionário ou religioso, numa paisagem de situações e rituais que irá compor um mosaico de imagens de Portugal. Teatro musical para quatro cantores/actores, coro misto e orquestra, Deus. Pátria. Revolução. chega ao palco do Teatro Carlos Alberto nos dias 23, 24 e 25 de Abril, a tempo de se intrometer nas comemorações oficiosas de mais um aniversário da Revolução dos Cravos.
Excerto de “A Oeste da Europa”. In
Deus. Pátria. Revolução.: [Programa]. Lisboa: Centro Cultural de Belém, 2009....
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A dramaturgia não procurou uma abordagem histórico-museológica. Procurou fundamentalmente duas coisas: que
a música falasse e que falasse (quase) sempre do nosso Portugal e dos nossos dias. Que a música mostrasse a sua força. Assim se foi criando uma espécie de história de Portugal em tempo de marcha, que se organiza em “quadros”, à maneira da revista à portuguesa; mas que procura as pontes, as ligações entre os sons, que ecoam e ressoam uns nos outros, uns contra os outros. O nosso negócio não é branquear passados. Sabemos de onde vêm as canções fascistas, para que serviram algumas delas, o que sacrificaram. Algumas falam de uma grandeza que não nos deixa indiferentes. Para os que consideram que o país continua a ser viável, há que continuar a fazer comédia.
Portanto, “Portugueses celebremos”: o poder da música, que nos arrasta no seu andamento, que nos faz bater o pé sem darmos por isso, até sem querermos, que nos põe palavras na boca, que nos leva para a guerra, que nos “mobiliza para a luta”, como se dizia na revolução, que nos ajuda no trabalho, que nos mostra a disciplina da dança, o gozo de ter um ideal, que nos eleva aos céus, e que nos revela muitos outros reinos e realidades possíveis. Celebremos o poder da música que nos move – e nos comove.
Luísa Costa Gomes
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