Nuno M Cardoso prossegue, na nossa companhia, uma viagem pela literatura alemã, com escalas em Goethe, Fassbinder e Brecht. Desta vez, resgata da sombra a mais controversa das peças legadas pelo filósofo e dramaturgo Gotthold Ephraim Lessing, um dos mais decisivos reformadores da arte dramática europeia. Estreada em 1772, Emilia Galotti foi desde então sucessivamente amada e repudiada, permanecendo uma esfinge com muitos segredos. Nunca saberemos o que verdadeiramente aconteceu no encontro entre o príncipe Gonzaga e a burguesa Galotti. E essa dúvida, que se instala no início do segundo acto, propaga-se como uma “peste emocional” até ao desenlace trágico. Emilia foi seduzida ou seduziu? Foi vítima da arbitrariedade do poder ou da fascinação pelo poder? Lacónico e perverso, o autor não esclarece nem julga as motivações das suas personagens. Em Emilia Galotti aprendemos a desconfiar da verdade. No livro Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt escolhe uma frase de Lessing que lhe parece condensar a sabedoria de todas as suas obras: “Que cada homem diga o que considera verdade, e deixe ao cuidado de Deus a verdade em si!”.
Excerto de “A força do desejo e o desejo da força”.
Público (30Out2009)....
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Albano Jerónimo (o príncipe) e Dinarte Branco (o braço direito) compõem personagens caprichosas cuja infantilidade perante o mundo ilustra bem o poder arbitrário que detêm. Fazem-no tão bem que o público não lhes consegue resistir. E Rita Calçada Bastos expõe a crueza da paixão da amante despeitada com tal vigor que os seus modos sedutores são, também, potentes. A encenação alterna momentos mais líricos, de solilóquio, com diálogos propriamente ditos, em que o enredo avança. A expressividade desses monólogos impressiona. A figura de cada actor, os figurinos e o cenário potenciam as falas e os desejos de cada personagem fascinam os espectadores. […] A cena final, do suicídio em nome da virgindade, custa a engolir, num mundo que impõe o gozo como estilo de vida. Mas, de facto, se Emilia representa a impotência perante a atracção dos poderosos, o seu suicídio é um gesto de libertação desse jugo. A estreia de Lessing em Portugal, afinal, não toma os portuenses por hamburgueses. Pelo contrário, este espectáculo explora as relações entre desejo e poder, partindo de um ponto de vista germânico, do século XVIII, é certo, mas com um olhar partilhado pelos actuais europeus do burgo do Porto.
Jorge Louraço Figueira
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