Da antiga lavandaria do Hospital Termal das Caldas da Rainha para o claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória, Letra M faz o seu caminho por espaços ditos “não convencionais”, os únicos capazes de conterem e funcionalizarem o dispositivo cénico e as pinturas de João Vieira, naquele que viria a ser o derradeiro acto performativo de um dos mais notáveis criadores portugueses das últimas décadas. Cultor de paradoxos, o encenador Fernando Mora Ramos fala-nos de um espectáculo “sem vocação para a morte”, isto porque nele quis centralmente reflectir sobre a “vida como desejo vital”. No interior do cenário concebido por João Vieira, lugar de arremesso de palavras e gestos, António Durães e Paulo Calatré trazem à presença dos espectadores O Lavrador da Boémia, de Johannes von Saaz, escrito em 1401 na sequência da morte da esposa amada. Texto iluminado em noite de trevas, este duro combate dialogado entre duas personagens – a Morte e o Lavrador – celebra a beleza da amada desaparecida na juventude da vida, contrariando assim, através da criação poética, o gesto destruidor da morte. Não será esse o papel da arte: tentar os impossíveis, rebelar-se contra a Grande Regra?
Excerto de “O Cenário”. In
Letra M: [Programa]. Porto: Teatro Nacional São João, 2009. p. 15....
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Eu e o João Vieira fizemos o que quisemos: um espaço que fundisse uma “impossibilidade”, circo romano e parlamento, arena e tribunal democrático, “espectáculo” da precariedade humana e lei da vida num confronto desigual, mas sempre tentativa de equilibrar os enfrentares por vir, de os deixar abertos ao entendimento das motivações e causas. Para quem entra no Espaço, quisemos que estivesse numa situação equilibrada, perto mas também em posição de clarividência na escuta, essa dupla missão de ver e ouvir. O que nesta representação se faz do lado de lá, no Palácio fabril da Morte. Somos seus convidados. Este foi o último cenário do cenógrafo. Foi uma aventura longa e precisa, durou dois anos. Feita de pausas e arranques. E como o João diz, chegando ao fim, chegámos, pelo menos, a uma nova pausa. Creio que é isso: uma pausa activa, em que dentro de nós laboram imagens e sensações que voltam sempre, mesmo que estejam algures num ponto impreciso da subjectividade retrospectiva e das emoções, memória presente, inevitável passado a espalhar a sua luz e os seus enigmas, as suas arestas e dores. Um magnífico cenário, a meu ver. Feito com muito pouco e feito também por um grande construtor, um príncipe do palco.
Fernando Mora Ramos
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