Um clássico, dizem, é um texto que ainda não acabou de dizer o que tem a dizer. É uma espécie de conversa inacabada, como aquela que o dramaturgo e encenador Luís Mestre tem mantido com algumas obras do repertório dramático universal, de que são exemplo Agora Sou Medeia (2010) e Do Precipício Tempestuoso de Ricardo III (2013). Depois de Eurípides e de Shakespeare, Luís Mestre olha agora para Quando Nós, os Mortos, Despertarmos (1889), peça de Henrik Ibsen que começa com uma personagem a dizer o indizível: “Talvez seja possível ouvir o silêncio.” A Chegada de um Comboio à Cidade apropria-se desta obra do dramaturgo norueguês, mas estamos perante uma apropriação livre, longe dos fiordes e dos parques com árvores antigas e frondosas que emolduram o drama de Ibsen. A Chegada de um Comboio à Cidade acontece numa cidade vertical e tecnológica, no interior de um arranha-céus frio e autossuficiente, lugar de onde se avista “a opressão, o apagamento e o tédio profundo provocados pela sociedade de produção e multitasking”. Para Luís Mestre, o diálogo com os clássicos não é um diálogo cerimonioso com os mortos, mas uma conversa viva com todos aqueles que ainda não acabaram de dizer o que têm a dizer.
