No complexo e fascinante jogo de espelhos dos heterónimos pessoanos, Álvaro de Campos, “engenheiro naval (por Glasgow)”, representa a exuberância que Fernando Pessoa não se permitiu ter. Curiosamente, a reputação de Pessoa começa a construir-se desde a primeira hora – em 1915, na revista Orpheu – em torno de Campos e da sua torrencialidade, que toca o sublime na Ode Marítima, poema que o ator Diogo Infante e o músico João Gil nos dão agora a ouvir com os olhos e a ver com os ouvidos, numa partitura cénica orquestrada pela encenadora Natália Luiza. Em palco, um homem observando um porto marítimo assume o comando de um paquete que não chegou a entrar no cais. Parte deste cais numa odisseia feita dentro de si mesmo, perpetrando imaginariamente todos os comportamentos humanos e procurando “sentir tudo de todas as maneiras”. Uma viagem ancorada no imaginário marítimo português, sustentando nessa metáfora de fluxo e refluxo do movimento do mar a contradição violenta de um homem que tenta unir diferentes sensações de identidade, transformando-se no cais e no destino, revelando a sua pluralidade de sentidos e tornando corpórea a viagem.
