“Os muçulmanos sentem-se como os judeus da Europa.” A declaração é recente, e foi proferida por Shahid Malik, o primeiro muçulmano a integrar um governo britânico. Lida num jornal, teria sido suficiente para desencadear em Ricardo Pais o impulso de promover uma nova montagem de O Mercador de Veneza, não fizesse já parte da shortlist do encenador a “comédia” de Shakespeare que reacções mais “sérias” tem gerado desde que foi escrita. O projecto remonta a 2005, quando ainda envolvia a participação do actor brasileiro Raul Cortez. É agora retomado com uma tradução inédita, e com um elenco de criativos e intérpretes que congrega novos e velhos conhecidos da Casa. Tomando em mãos uma obra que baralha as coordenadas da alteridade nacional, rácica, religiosa e sexual, Ricardo Pais transcreve para a cena a força sanguínea tanto da prosa como da poesia do judeu Shylock, do cristão António, de Pórcia, Bassânio e restantes personagens, e acciona o jogo de duplicidades a que Shakespeare as abandona. No TNSJ, o ano começou com a maldizente Veneza de Goldoni. Houve, pelo meio, a cínica Veneza de R.W. Fassbinder. Agora que nos aproximamos do termo de 2008, chegamos à Veneza de escuros becos psíquicos imaginada por Shakespeare, com uma muito musical Belmonte do outro lado do espelho. O chamamento vem do seu interior: “Vamos sentar aqui, deixar que os sons da música nos subam aos ouvidos”.
Meio quilo de carne
4 perguntas a Ricardo Pais.
Por Pedro Sobrado.
A tradução de Daniel Jonas substitui a célebre expressão “libra de carne” por “meio quilo de carne”. Partindo do princípio de que a tradução é o primeiro gesto da encenação, pergunto se um pormenor como este é revelador do tipo de comunicação que pretende criar na montagem de O Mercador de Veneza.
Não iria tão longe. Uma libra nunca foi uma medida de peso geralmente reconhecível entre nós, mas corresponde aproximadamente a meio quilo. Meio quilo não se confunde, como a libra, com uma moeda ou um valor outro. Meio quilo de carne reflecte cruamente a terrível consanguinidade provocatoriamente exigida pelo judeu.
A versão cénica propõe toda uma reestruturação da sequência das cenas. Um exemplo: a cena do tribunal, que originalmente encontramos já próximo do desfecho da peça, situa‑se agora no final da primeira parte. Que propósitos ou opções cénicas visa esta cirurgia dramatúrgica servir?
A operação dramatúrgica está ainda em aberto, enquanto editamos este caderno de programação. O que se tenta resolver com o texto e o espectáculo é o desequilíbrio entre a Veneza sombria, multirracial e mercantil, e a beleza de portas abertas à música de uma Belmonte supostamente cristã e paradisíaca. É a exaltação dessa diferença, que tem no tribunal um momento de “mascarada”, que é a apoteose de todos os equívocos (rácicos, religiosos e de género), o que move o nosso trabalho preparatório. Acrescente‑se o gosto pela vertigem barroca das máscaras e pela multiplicação infinita a que Shakespeare sempre convida, e está confessada a nossa momentânea razão de ser.
A recepção de O Mercador de Veneza tem uma história complexa, não isenta de polémicas. Dela já se afirmou, por exemplo, que é “uma obra profundamente anti‑semita” e também que inclui um statement filo‑semita, corajosamente feito contra a corrente da época. Que valor tem este legado crítico para quem toma a decisão de encenar a peça de Shakespeare?
O legado crítico não altera em nada as convicções da nossa primeira leitura. Nunca achei a peça anti‑semítica. O corpus crítico, literário ou dramatúrgico acumulado nos últimos cem anos tem flectido em muitas, e muito subtis, direcções. O espectáculo não vive de medos ou preconceitos. Apenas experimenta argumentos para o devir da crítica.
Esperemos que sejam originais.
Shylock – para muitos, o verdadeiro protagonista – foi historicamente interpretado como um vilão cómico; António – o mercador que Shakespeare destaca no título – é frequentemente tratado como um beato, uma criatura frágil ou alguém que se faz de vítima. Qual é o seu entendimento acerca destas duas criaturas, verdadeiros inimigos de morte?
A peça é uma guerra de titãs. Todas as guerras escondem a intimidade e a fraqueza de cada um. Todas as guerras encenam a ocultação das fragilidades de cada um; todas as leis são omissas porque evitam a subjectividade. Vamos ver o que fazemos com estes actores fantásticos, e este texto perigoso e alucinante.
entrevista Ricardo Pais
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