Filho da assistência social e das casas de correção, de delinquências e vagabundagens, Jean Genet é o autor de uma escrita que, como uma arma branca, fere não apenas a normalidade social, mas também a normalidade literária e dramática. Para ele, a beleza deve ter “a força de um poema, quer dizer, de um crime”. As Criadas (1947) trata de um delito – cismado, sonhado, ritualizado como uma missa negra. Duas criadas irmãs congeminam o homicídio da sua patroa, entregando-se a uma espiral de jogos de representação. Encenador que, com Gertrude (2013), se intrometeu no reduto íntimo da “mãe poluída” de Hamlet, Simão Do Vale faz um novo investimento no universo feminino, imiscuindo-se agora no quarto de uma Senhora que se converte em espaço cerimonial de um sacrifício. O espetáculo parte da tradução inédita que Luísa Costa Gomes fez da primeira versão da peça, desconhecida dos nossos palcos – aquela que Genet escreveu (condensando num único ato uma versão original perdida) antes das modificações que lhe seriam impostas e que dariam origem à versão corrente da peça. Com As Criadas, peça frequentemente rotulada como uma denúncia das desigualdades sociais, não se pretende fazer um manifesto. Previne o encenador: “Este espetáculo é sobre as tentativas de nos libertarmos da clausura através da imaginação. Esse bicho pecaminoso que vive alegremente dentro das nossas cabeças.”
