ENTREVISTAS | TODOS OS QUE FALAM

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Todos os que Falam, uma série de entrevistas sem pressa com quem conhece, pensa e faz teatro.

GÁBOR TOMPA
Tempos “estranhos, absurdos”. O atual presidente da União dos Teatros da Europa recorda como os anos 80 da Roménia de Ceaușescu definiram “a poesia do teatro” de toda uma geração de encenadores, antes da viragem democrática no país e da própria chegada de Tompa ao Teatro Húngaro de Cluj, instituição que ainda hoje dirige. “Se alguém dissesse ‘não há carne no talho’ numa comédia, as pessoas faziam uma ovação.” Na tradução portuguesa da “partitura musical” que leva à cena do São João neste 7 de março distingue “uma sonoridade muito especial”. Sublinha que as peças de Beckett não são sombrias, “simplesmente dizem que não há um caminho fácil, que temos de continuar a caminhar”, ecoando a resposta do poeta húngaro János Pilinszky, a quem um dia terão perguntado sobre as suas esperanças na vida: “Espero vir a conseguir morrer, porque, até ver, toda a gente conseguiu.”

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FRANK CASTORF
Entre 1981 e 1985, ainda antes de tomar as rédeas da Volksbühne, em Berlim, Frank Castorf foi diretor do pequeno teatro de Anklam, no leste da República Democrática Alemã. Otelo, uma das suas primeiras encenações, foi acompanhada de perto pela Stasi: a peça “é tão ofensiva para Shakespeare como para o público”, lia-se nos relatórios secretos da polícia política. Ou então, segundo a formulação do teatrólogo americano Marvin Carlson, tão provocatório para o establishment estético como para a elite política.

Antonin Artaud já nos avisara: “desde que a peste assenta arraiais numa cidade, todas as formas estabelecidas se desintegram”. Em dezembro passado, quando trouxe a Portugal e ao São João Bajazet, Considerando o Teatro e a Peste, Frank Castorf dizia-nos que é “preciso fazer arte com uma brutalidade tremenda”, que “o teatro é uma força malévola e independente, que possui algo de demoníaco, que tem de ser sempre resistente”, uma declaração de intenções por demais sancionada pela sua particular leitura das obras de Racine e Artaud, com Pascal e Dostoiévski, em Bajazet. “A mim interessa-me juntar as coisas que supostamente não têm relação. O nosso mundo é mesmo assim. O que mais gosto é de descobrir a dissonância, o que não combina.” Nessa semana, sobravam os adjetivos ao jornal Público: “brutal, violento, lascivo, belo e perturbador”.

Neste segundo episódio de Todos os que Falam: rude como “um filho malvado”, mas com a ingenuidade de uma criança que apenas diz que o rei vai nu, se o rei vai nu.