O sil锚ncio que antecede as palmas

Paulo Ara煤jo Ferreira*

N茫o 茅 a resposta que nos ilumina, mas sim a pergunta.
Eug猫ne Ionesco

Ao ser confrontado com um convite, alargado a muitos, para escrever sobre um espet谩culo da programa莽茫o do Teatro Nacional S茫o Jo茫o, hesitei. No entanto, decidi ser afoito e aceitar o desafio. Seguiu-se a escolha do espet谩culo. Muitos, excelentes, j谩 estavam tomados. Lembrei-me de um que, na altura, me impressionou de forma indel茅vel 鈥 Rhinoc茅ros, de Ionesco. Contudo, que poderia dizer acerca do visionamento de uma encena莽茫o que aconteceu h谩 tanto tempo (decorreram 13 anos)? A mem贸ria n茫o me atrai莽oaria? E o que 茅 isso, mem贸ria鈥?

Lembrei-me, em primeiro lugar, de recorrer 脿 caixa de sapatos onde guardo os bilhetes dos espet谩culos a que assisti desde meados dos anos 90. Encontrei. Ali estava o ingresso que provava que tinha estado presente na encena莽茫o de Emmanuel Demarcy-Mota.

Curiosamente, estava plenamente convencido de que tinha assistido a este espet谩culo no Teatro Nacional. Errado. Percebi que o evento, apesar de dinamizado pelo TNSJ, tinha acontecido noutro local.

Esforcei-me por recordar imagens, movimentos, sons, cheiros, palavras鈥

Confesso que pouco ficou.

A nossa mem贸ria atrai莽oa-nos constantemente e, quando somos apanhados desprevenidos, percebemos o qu茫o d茅bil esta pode ser.

O que posso recordar, de forma difusa, s茫o sons distantes, mas poderosos, que ecoam at茅 hoje. Deste espet谩culo, claramente, permaneceu aquilo que considero amar mais. A m煤sica. Neste caso, o ru铆do estranho, incomodativo, pesado, muito significativo, dos rinocerontes em que os seres humanos, muitas vezes ao longo da nossa Hist贸ria, se transformaram. A besta que substitui o humano. A falta de caridade, de empatia, de solidariedade, presentes tantas vezes ao nosso redor. Este aspeto do teatro do absurdo de Ionesco foi magistralmente traduzido pelo encenador. O movimento em cena e, uma vez mais, a 鈥渕煤sica鈥 da pequena sinfonia de sons da coreografia a acontecer num escrit贸rio/andaime 鈥 com as m谩quinas de escrever, os livros e os pap茅is que os atores manuseavam 鈥 e que transmitia, genialmente, a ideia do dramaturgo.

O espet谩culo teve o cond茫o de prender 脿 cadeira o audit贸rio como se este tivesse receio de respirar e perturbar aquilo que decorria em cena, alterando o equil铆brio/desequil铆brio dos acontecimentos que se sucediam em palco.

Quando tudo terminou, e o solil贸quio de B茅renger deu lugar ao sil锚ncio, as palmas soaram entusi谩sticas e a sua reverba莽茫o, admito, permanece na minha mem贸ria.

脡 um momento muito especial, que aprecio particularmente: o sil锚ncio que antecede as palmas. Seja porque a magia ainda est谩 a envolver-nos, seja porque a perplexidade d谩 lugar ao desalento. Em qualquer dos casos, transporta uma sensa莽茫o deveras 煤nica.

A caixa preta, uma vez mais, atrav茅s daquilo a que chamamos teatro 鈥 as palavras, os corpos e as vozes dos atores, juntamente com os sons e a luz 鈥, traz-nos de volta o th茅atron: o lugar de onde se v锚. E, novamente, a oportunidade de nos confrontarmos connosco pr贸prios. Hoje. H谩 13 anos. Amanh茫. Sempre que a magia acontece e nos esquecemos de que aqueles que est茫o diante de n贸s n茫o s茫o uma 鈥渢rupe de saltimbancos鈥 mas sim algo maior e mais poderoso que nos provoca 鈥渁 sensa莽茫o鈥: de nos vermos ao espelho ou de sairmos de dentro de n贸s para, misteriosamente, nos observarmos de fora.

*Espectador.

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7+8 Julho 2006
Rivoli Teatro Municipal

RHINOC脡ROS

de Eug猫ne Ionesco
encena莽茫o Emmanuel Demarcy-Mota
coprodu莽茫o La Com茅die de Reims, Th茅芒tre de la Ville
Ciclo La Com茅die de Reims no Porto

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

fotografia Jo茫o Tuna