O pano de boca e a liberdade do encenador

JOS脡 AUGUSTO CARDOSO BERNARDES*

A Barca da Gl贸ria 茅 um texto algo escondido no repert贸rio vicentino. Por ter sido escrito em castelhano e por fazer parte de uma s茅rie em que figuram outras duas pe莽as: Inferno (1517?) e Purgat贸rio (1518). Dir-se-ia que o conhecimento destes dois outros autos escritos em portugu锚s quase dispensa o conhecimento de Gl贸ria, a pe莽a, que, na P谩scoa de 1519, p玫e fim ao ciclo das Barcas.

Por茅m, n茫o adianta escond锚-lo, este descaso deve-se ainda a outro motivo: para muitos, o auto termina de forma decepcionante. Depois de nas Barcas anteriores se terem julgado sobretudo as classes baixas e m茅dias, tinha chegado a vez de julgar os grandes do mundo. Os pecados s茫o graves e lembrados com clareza. Mas existe uma diferen莽a importante: ao contr谩rio do que tinha antes sucedido, as personagens arrependem-se dos erros cometidos e imploram por miseric贸rdia. A l贸gica doutrinal, por茅m, era clara: nada podia fazer-se depois da morte para evitar a perdi莽茫o dos pecadores: nem ora莽玫es tardias nem trocas venais.

Fundado nesta mesma l贸gica, o encenador italiano Giorgio Barberio Corsetti, que pela primeira vez chegava a Gil Vicente, n茫o aceitava a didasc谩lia que indica o gesto redentor do Cristo pascal. Como compreender que a Alcoviteira ou o Sapateiro da Barca do Inferno tivessem sido condenados por 鈥渢茫o pouco鈥 quando os poderosos se tinham salvado?

Logo na primeira conversa, o encenador quis saber a minha opini茫o. N茫o teria havido interven莽茫o de alguma censura? Talvez a remiss茫o dos poderosos fosse o pre莽o a pagar por Gil Vicente ou pelos seus editores para que o texto tivesse sido representado e publicado.

Invoquei o enquadramento doutrinal: 脿 luz da escatologia da 茅poca, tal como o Merecimento, tamb茅m a Miseric贸rdia constitu铆a uma via de resgate. Aduzi ainda um argumento que me parecia essencial: o resgate acontecia em dia de P谩scoa e vinha directamente do Ressuscitado, que distribui remos pelos pecadores arrependidos.

Debalde. N茫o houve maneira de fazer prova da coer锚ncia de Gil Vicente. Afinal, a teologia de Quinhentos n茫o podia competir com os imperativos de justi莽a pr贸prios do nosso tempo.

No dia da estreia, a minha curiosidade era enorme: como iria o encenador resolver o problema do final da Barca da Gl贸ria?

A parte do espect谩culo que dizia respeito aos dois primeiros autos decorreu em absoluta fidelidade ao texto. O mesmo parecia suceder com a Barca da Gl贸ria, que 茅, de resto, o auto mais teatral de toda a s茅rie. As personagens entravam em cena pela m茫o da Morte, indiciando uma diferen莽a essencial. Essa parceria, que revelava a forte presen莽a das dan莽as macabras, significava que cada uma das figuras vinha j谩 acompanhada da consci锚ncia do Al茅m. Era essa mesma consci锚ncia que depois facilitava a assun莽茫o dos pecados e o arrependimento.

A 煤ltima personagem a comparecer no palco foi o Papa e a condena莽茫o era clara. 脌 semelhan莽a do que sucedera com todos os outros, nada ficou por dizer, em respeito escrupuloso pela Letra e pelo Esp铆rito do texto.

Mas, quando me preparava para ver a solu莽茫o cenogr谩fica que Corsetti preparara para a indica莽茫o final, eis que o pano desceu. Assim se rasurava, na pr谩tica, o conte煤do da embara莽osa didasc谩lia.

J谩 nos bastidores, onde foi servido o beberete que assinalava a estreia, perguntei ao encenador quais os motivos que o tinham levado a excluir a solu莽茫o querida por Gil Vicente. Como quem esperava a pergunta e como quem preparara a resposta, disse-me ent茫o o fino e inventivo encenador das Barcas:

鈥淣茫o sei se foi uma solu莽茫o querida. De qualquer modo, n茫o exclu铆 nada. O pano desceu um bocadinho antes do que o texto manda. Mas cada um 茅 livre de adivinhar o que continuou a acontecer no palco!鈥

*Professor da Universidade de Coimbra.

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28 Janeiro 鈥 20 Fevereiro 2000
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

BARCAS

de Gil Vicente
encena莽茫o Giorgio Barberio Corsetti
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna