Brincadeiras de crian莽as

LU脥SA COSTA GOMES*

Como espectadora, sou um verdadeiro desastre. Ao fechar das portas j谩 s贸 resta meia de mim sentada na cadeira. O resto anda a esvoa莽ar na sala, e isto 茅 se n茫o saiu mesmo para passear na rua. Com os reduzidos meios que ficam, compreender茫o que n茫o hei-de ter muito a dizer no beberete. Entre os espectadores absentistas, relutantes e distra铆dos, sentem-me logo nas primeiras filas. Quase tudo 茅 melhor, para mim, do que assistir a um espect谩culo. Absentista confirmada e reconfirmada, alheada de tudo quanto acontece, das estreias, dos eventos e dos programas culturais. N茫o me gabo, longe disso. Mas uma sala escura com bonecos a mexer ou figurinos em evolu莽茫o cavernosa 茅 contra a minha natureza, e se me interessa, s贸 me interessa perceber como 茅 que se faz, para poder fazer tamb茅m, caso venha a prop贸sito. A bossa da frui莽茫o est茅tica por d谩 c谩 aquela palha n茫o se me desenvolveu quando havia de se me ter desenvolvido e agora olha, j谩 n茫o vou l谩. N茫o cresci para ser maduramente espectadora de coisas que me oferecem. Digo-vos isto para que se compreenda a dificuldade do contexto. Como 茅 que se apanha uma espectadora destas? 脡 com rebu莽ados, como 脿s crian莽as. 脡 pela novidade constante, pela reviravolta, pela mudan莽a de ritmo, pelo inesperado, pelo disparate, pela beleza aguda de uma deixa, pela vitalidade que emana do que 茅 original sem ser para ingl锚s ver! Se lhe botam uma fala a mais, j谩 fui. Se a cena se arrasta, pergunto-me por que raio n茫o cortaram o peda莽o. H谩 pessoas 鈥 felizes, essas! 鈥 que tendem a adormecer no escuro. Acordam para os aplausos e j谩 v茫o com o primeiro sono despachado. Quem me dera. Gabo-me 茅 de nunca ter adormecido num espect谩culo, nunca! Por a铆 j谩 podem ver que sofro. Mas n茫o pensem que percebo 脿 primeira a consist锚ncia formal de uma encena莽茫o ou as complexidades de um grande texto contempor芒neo! Que falo com conhecimento de causa e cito entidades e intertextualidades! Estou acordada, mas a coisa n茫o 茅 f谩cil! Qualquer texto decente deve ser visto pelo menos 10 vezes. Os habituais safam-se com cinco. Quem 茅 que tem tempo e paci锚ncia para tanto?

Deixando de lado essa aberra莽茫o da Natureza que 茅 o cr铆tico de teatro, que vive a ver teatro, coitado, temos que o espectador ocasional ou amador e o profissional espectador est茫o em extremos opostos do espectro. O espectador amador vive da magia do espect谩culo, o profissional perdeu a inoc锚ncia h谩 muito. E, no entanto, acontece de vez em quando recuperar a inoc锚ncia e esse encontro 茅 imponder谩vel, supinamente maravilhoso, 茅 do cara莽as. H谩 muito espect谩culo, cada vez mais espect谩culo profissional, com tudo no s铆tio, ele 茅 v铆deos, ele 茅 luzes divinais, ele 茅 som impecavelmente t茅cnico. Actores do outro mundo. Encenadores inteligentes e bem formad铆ssimos. Ser谩 poss铆vel a banaliza莽茫o da excel锚ncia? H谩 outra via. 脡 fazer. Se encontro um texto que me convoca, tenho de ou traduzi-lo, ou aplicar-lhe a tortura da dramaturgia (鈥渢or莽茫o do nariz, arrancan莽o dos cabelos, penetra莽茫o do pauzinho nas onelhas鈥), para conseguir perceb锚-lo e am谩-lo inteiramente. Se nem assim, ent茫o s贸 me resta escrev锚-lo.

H谩 trabalhos em que se participa, na tradu莽茫o, na dramaturgia, na leitura de mesa, no acompanhamento dos ensaios, textos que sabemos j谩 de cor e que, no entanto, ao abrir da cortina, se tornam de novo novos, o disparate tem cada vez mais sentido e a brincadeira 茅 exactamente como a brincadeira das crian莽as, que reencena o novo e permanece familiar e estranha. E em que embora saibamos o que vai acontecer, n茫o acreditamos que possa acontecer e somos sempre surpreendidos quando acontece. Experimentem fazer c贸cegas a um mi煤do pequeno. O que ele espera que aconte莽a n茫o 茅 melhor do que aquilo que de facto acontece. A铆 茅 que a vida brilha. Foi assim com os UBUs de Ricardo Pais, serendipitoso. De cada vez que entrava a Em铆lia ou a Joana saltava do ba煤, que aparecia a pan莽a de trapos do Jo茫o, se ouvia o pequenino rei Ant贸nio em cima da carro莽a, ou a banda dos paulitos, dos altifalantes 脿s pistolas, dos tamancos 脿s tesouras, e infinitas outras merdras, tudo eram c贸cegas em v谩rias partes do consciente e do inconsciente. E se ainda me rio quando me lembro, amigos, 茅 porque foi realmente memor谩vel.

*Escritora.

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16 Abril 鈥 7 Maio 2005
Teatro Carlos Alberto

UBUs

de Alfred Jarry
encena莽茫o Ricardo Pais
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias
Cadernos do Centen谩rio | 1
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fotografia Jo茫o Tuna