Lugares esquisitos

M脫NICA GUERREIRO*

As esta莽玫es s茫o lugares esquisitos. N茫o 茅 apenas por provocarem aquela sensa莽茫o de transitoriedade e imperman锚ncia, de um estar sendo em continuidade. Tamb茅m n茫o 茅 s贸 por serem n茫o-lugares, espa莽os de desencontro, de espera e de desindividua莽茫o. A ter de precisar, diria que a estranheza das esta莽玫es adv茅m de serem portais: concretizam aquela coisa de se estar num s铆tio e ser transportado para outro lugar. Isso 茅 que 茅 perturbador. N茫o sentir o trajecto, ser-se atravessado pela viagem e de algum modo chegar a outro lugar, sem nossa interven莽茫o. Somos apenas levados. Abducted. Subtra铆dos de um lado e adicionados do outro. N茫o estamos no comando, nem temos ag锚ncia. Mas a passagem 茅 a n贸s que nos acontece.

Bastante como no teatro.

Imaginemos que isto se passa no Porto. Estamos ali e depois j谩 n茫o estamos. Tamb茅m n茫o estamos em Elsinore nem aquela floresta de microfones est谩 a fingir que nos engana. N茫o; sabemos bem como se d谩 este mecanismo de traslada莽茫o e distinguimos nitidamente entre fic莽茫o e realidade. Tamb茅m fantasiamos desconhecer o enredo e as falas e a fatalidade, pelo gozo de sentir as varia莽玫es autorais na apropria莽茫o do c芒none. Mas a coisa acontece-nos e, de repente, apercebemo-nos de que nada ret茅m os contornos que pens谩mos conhecer. Em um Hamlet a mais, o convite 茅 para uma ininterrupta desloca莽茫o. Daqui para ali, sem sinal sonoro; nem um aviso para estarmos atentos 脿 dist芒ncia entre as portas e a plataforma.

Nada 茅 como devia ser?

A mem贸ria n茫o guarda todos os compostos da experi锚ncia, mas o deslocamento est谩 l谩: persiste, num canto esconso da lembran莽a, a sensa莽茫o de que aquele objecto n茫o pertence inteiramente ali (nem em termos f铆sicos nem no que concerne 脿 esfera do sentido). Preto e rubro s茫o as cores sugestivamente associadas 脿 trag茅dia, e contudo ali a temos vestida de branco, resplendente, com um toque negro apenas. Tamb茅m nos habitu谩mos a frequentar o Teatro Nacional S茫o Jo茫o para comungar das realiza莽玫es de Ricardo Pais, e todavia ali estamos, no grande audit贸rio do Rivoli, mais branco a reflectir as alvuras da cena, mais cubos a ressoar a quadratura instalada em palco, prolongamento do desenho geom茅trico que os figurinos interrompem. Espadas e guitarras el茅ctricas digladiam-se pela nossa aten莽茫o, absorvida pelo v铆deo, nesta pe莽a teatral virada concerto rock, onde os int茅rpretes s茫o desencaminhados e Rosencrantz e Guildenstern nem sequer aparecem. Tudo fora do seu devido lugar, portanto.

Ou nem muito assim. Porque tudo encaixa.

Na caixa negra uma representa莽茫o branca. No palco tridimensional outra caixa, de imagens e cores, formada por quatro telas de projec莽茫o (alucina莽玫es? fantasmagorias?). Lutas, sobreposi莽茫o de mon贸logos e sons dissonantes, movimento, excesso, revoada. Como 10 anos antes fizeram os U2 na digress茫o Zoo TV, inesperada revis茫o das regras aprendidas (este n茫o ser谩 mais um espect谩culo s贸brio e razo谩vel, esses j谩 fizemos 鈥 diz a banda e diz Pais). Informa莽茫o torrencial a verter da cena para uma plateia sobre-estimulada, a apanhar com o drama estilha莽ado e a degustar cada momento de um Hamlet reinaugurado, reconfigurado, desconstru铆do 鈥 como se diz de certos pratos da nova cozinha 鈥, mesmo se n茫o reconhecemos os sabores individuais envolvidos em novas texturas e combina莽玫es resultantes de uma confec莽茫o sofisticada. Achtung baby.

Fim de esta莽茫o?

N茫o 茅 um Hamlet servido requentado nem a pre莽o de saldo. Nem sequer 茅 o lado b do Hamlet anterior. 脡 toda uma outra inven莽茫o. Porque o encenador j谩 tinha chegado 脿 esta莽茫o terminal da primeira vez, aqui foi preciso fazer um transbordo 鈥 para outro s铆tio. Esquisito lugar, tamanha rela莽茫o de for莽as entre a tradu莽茫o de Feij贸, o design de Lagarto, a m煤sica de Rua, as vis玫es-fic莽玫es de Iaquone e Am茅rico e as manobras do trio Jo茫o Reis / Ant贸nio Dur茫es / Lu铆sa Cruz. Uma disputa corpo-a-corpo de que sa铆mos rendidos, magnetizados, sem saber bem como l谩 fomos parar, mas desejantes de uma nova trip. Valha-nos memory lane.

*Autora.

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24-31 Julho 2003
Rivoli Teatro Municipal

um Hamlet a mais

a partir de William Shakespeare
encena莽茫o Ricardo Pais
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna