Mem贸ria preto e branco a cores

MARTA ALMENDRA*

al mada nada. Tudo. O rufar do tambor, as saias nas pernas dos homens musculados. As cores das saias deles. O rodopio. O sussurro da travagem das palavras. O meu amor鈥 Bonito.

脡 noite e estou sentada na cadeira de veludo. Sofro por saber que Almada, de f谩cil, n茫o tem Nada. Antecipo o sofrimento do meu amor. Interrogo-me se vou (ou n茫o) entender. Se conseguirei entregar o cora莽茫o e esquecer o intelecto, o esfor莽o da compreens茫o que distrai o sentimento. Sorrio.

Entram, no meu cora莽茫o, os peda莽os de revolu莽茫o, os bella ciao do bater das baquetas na pele esticada da tarola, os bella ciao das cores de Portugal, os bella ciao do folclore, os bella ciao das suspens玫es, os bella ciao da batalha. O universo virado do avesso, com pernas que se movem para caminhar no ar. O respirar da plateia, o pulm茫o do p煤blico, que acompanha o bailarino-cavalo, sensual, quente, transpirado, pleno de gotas de suor como se antecipasse um orgasmo. A voz, o muro amarelo ao sol, aquela voz a romper de calor os corpos da assist锚ncia, a antecipar a explos茫o. O trocadilho das palavras, amarelo, guarita, sol鈥 Outra vez鈥 Amarelo, guarita, sol鈥 O calor鈥 O calor鈥 O sol a aquecer os corpos. A plateia a encher-se de cheiro a um Portugal que n茫o conheci, mas que reconhe莽o nos genes. O orgulho. O orgulho de ser portuguesa, o orgulho de amar, o orgulho de ser amada, o orgulho de ter parido, o orgulho de ter fam铆lia, o orgulho de estar viva. Apetece-me balan莽ar o corpo, acompanh谩-los na viagem. Entrar na janela de um tempo mais escuro. Apetece-me trepar a rampa de madeira e rebolar no meio dos panos estampados a cora莽玫es de Viana e a galos de Barcelos. Vejo mulheres nos corpos dos homens. S茫o masculinos e femininos ao mesmo tempo. Os sapatos de verniz nos p茅s cautelosos, que sabemos poderem escorregar a qualquer momento. Fico presa, capturada, convencida, apaixonada, num tempo qualquer que desejo parado, que desejo eternizar numa mem贸ria preto e branco a cores. N茫o escondo o amor que sinto por aquele homem t茫o belo, t茫o profundo, t茫o meu鈥 N茫o escondo a admira莽茫o, a sensa莽茫o de que depois daquele momento maravilhoso se seguir谩 outro ainda melhor. As fileiras de soldados que se unem e desunem. O romper da fileira, o construir do c铆rculo, o canto da rua escura onde dan莽am os soldados. B锚bados, escondidos da humanidade que julga ver neles a salva莽茫o. Vestem as saias, divertem-se, provocam-se, s茫o cavalos e pav玫es. ZoraZoraaaaa鈥 S茫o homens iguais aos outros. Homens que partem para a guerra novos demais. Rufa-me esse tambor鈥 Rosto de homem e cora莽茫o de crian莽a. E tudo por causa da Zora. Medo e coragem鈥 Puta, estupor. Luta e pausas para cigarros. O fumo dos cigarros sem filtro a passar no meio da comitiva de povo que aplaude na chegada. O fumo dos cigarros sem filtro no meio da comitiva de povo que chora na partida. O orgulho. E mais uma vez as palavras. Muito soltas como p谩ssaros livres, que se cruzam sem se tocarem. Uma palavra, outra, como o bater de muitos cora莽玫es. As palavras como notas em partitura, como m煤sica sem instrumento, como canto sem can莽茫o. H谩 uma harmonia confusa, um salpicar intenso de mem贸rias e de futuro, de passado e de premoni莽茫o.

Voltei v谩rias vezes 脿 cadeira de veludo. De todas as vezes senti o mesmo, como uma droga que se espalha no ar e que, sem nos apercebermos, nos deixa cambaleantes. Sinto-me grata.

al mada nada. Tudo.

*Dramaturga.

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26-29 Mar莽o 2014
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

al mada nada

de Ricardo Pais a partir de textos de Almada Negreiros coprodu莽茫o Companhia de Teatro de Almada, Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna