Um problema de habita莽茫o existencial

JOANA MATOS FRIAS*

O sil锚ncio
Passados estes anos, a resson芒ncia mais forte 茅 a do sil锚ncio ensurdecedor entre v谩rias paredes, a quarta inclu铆da. A da suspens茫o do sentido pela intensifica莽茫o dos sentidos. Uma febre fria de s谩bado 脿 noite, aferida por gestos m煤ltiplos, alguns deles nada dan莽antes. V谩rias intimidades devassadas pelo espectador j谩 emancipado, confortavelmente instalado no desconforto do seu voyeurismo actuante. A for莽a dos corpos falantes na express茫o muda, a ferocidade das cenas ad infinitum, quadros simult芒neos e sucessivos, muito vivos, a fotografia animada, a anima em palco, o sussurro inacess铆vel dos segredos que (n)os movem. Nada mais performativo, portanto. Uma noite ag贸nica de grandes e pequenas agonias e ang煤stias, todas reveladas na topologia implac谩vel de um lugar-n茫o-lugar acess铆vel por uma janela indiscreta muito especial.

A janela
Era pelas janelas que se entrava em cena: n茫o o actor, mas o espectador, violentando a certeza dos limites entre espa莽o 铆ntimo e espa莽o p煤blico. E as janelas eram quase magrittianas, de certo modo, pois atrav茅s delas o espectador experimentava uma radical crise da (de) representa莽茫o, ao invadir um mundo t茫o privado que nem sequer era verbal ou visualmente configur谩vel. Spectator in fabula. Seria um lugar-comum sugerir que aquelas janelas concediam acesso a uma dada dimens茫o do invis铆vel, mas talvez fa莽a sentido ficarmos mesmo com o lugar-comum, j谩 que s贸 ele, neste caso, poder谩 dar conta da for莽a de uma atmosfera, das suas sugest玫es e ind铆cios, daquilo que n茫o quer deixar de ser da ordem do subliminar: seriam s贸 seis personagens em busca de um espectador?

A casa
Alguns an煤ncios publicit谩rios prometem 鈥渦ma casa para a vida鈥. N茫o seria este o an煤ncio de Saturday Night, mas um dos maiores motivos de impacto da pe莽a resultava justamente desse v铆nculo entre a casa e a vida, como se naquela casa de 90 minutos tivesse cabido a vida toda, as vidas todas, com as suas lutas, receios, ansiedades, expectativas e esperan莽as. N茫o era uma casa portuguesa, com certeza, mas poderia ser uma casa portuguesa, com toda a certeza. Em certa medida, era face a um problema s茅rio de habita莽茫o que nos encontr谩vamos 鈥 n茫o propriamente originado por quest玫es arquitect贸nicas, de engenharia civil ou de urbanismo, ainda que tudo naquela casa evidenciasse um cuidado cenogr谩fico meticuloso com a cria莽茫o de um ambiente (dom茅stico e mental). Tratava-se, isso sim, de um problema de habita莽茫o existencial e afectiva, de entrada f谩cil e com poucas sa铆das evidentes ou tranquilizantes.

A fuga
Estes anos passados, a inabal谩vel recorda莽茫o do trabalho de Matthew Lenton e do seu Vanishing Point: na resson芒ncia beckettiana mediada pelo trabalho de Herbert Blau, o ponto de fuga das fronteiras entre natureza e cultura, entre linguagens art铆sticas, entre a vida privada e a exposi莽茫o p煤blica, entre intimidade e espect谩culo, entre espa莽o cenogr谩fico e tempo (p贸s-)dramat煤rgico. Em s铆ntese, a encena莽茫o do d煤bio, a concretiza莽茫o da sua performatividade latente. H谩 quem chame a tudo isto imagens-limite. Para o espectador, com efeito, o jogo perverso consistiu em ser levado a praticar a mais pura vis茫o, essa vis茫o t茫o pura que permitia escutar o que nem as palavras ousavam proferir, quer dizer, a praticar uma vis茫o t茫o pura que criasse disponibilidade para acolher a mais perfeita express茫o do pathos hipermoderno, esse que talvez s贸 a extrema solid茫o explique.

*Ensa铆sta, professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

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15-18 Setembro 2011
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Saturday Night

conce莽茫o e dire莽茫o Matthew Lenton
coprodu莽茫o Vanishing Point, Centro Cultural Vila Flor 鈥 Teatro Oficina, S茫o Luiz Teatro Municipal, Tramway, Compagnia Teatrale Europea, Teatro Nacional S茫o Jo茫o | Odisseia: Teatro do Mundo

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna