A voz de Ant铆gona

PEDRO EIRAS*

Ant铆gona: eis um mito vindo da noite dos tempos, e uma trag茅dia grega com 2500 anos; e tamb茅m uma pe莽a de teatro encenada por Nuno Carinhas, no Teatro Nacional S茫o Jo茫o, em 2010; no instante em que escrevo, quase 10 anos depois, a trag茅dia de S贸focles continua urgente e absolutamente actual, sem sinal de envelhecimento. Passam os s茅culos, os mil茅nios, e ecoa sempre a voz daquela jovem que dizia: 鈥淣茫o nasci para odiar, mas para amar.鈥 Eis um texto que vem do mais remoto passado, que continua a subir 脿 cena no s茅culo XXI, que decerto nos aguarda no futuro, onde quer que haja lei e revolta, prepot锚ncia, esc芒ndalo e coragem.
Ant铆gonas: Omer Goldman, Malala Yousafzai, Marielle Franco, Saba Kord Afshari.

Lembro-me: o palco era ocupado por uma constru莽茫o circular, interrompida por uma sequ锚ncia de degraus 鈥 谩gora enclausurante, ou talvez po莽o, vertigem do Hades, decl铆nio inscrito no pr贸prio espa莽o. Entravam Ant铆gona e Ismena, e logo 脿s primeiras palavras j谩 era tudo irremedi谩vel: a ousadia, o sacrif铆cio, mas tamb茅m o medo e a recusa, a morte digna e a sobreviv锚ncia assustada. Creonte, H茅mon, guardas e mensageiros, o pr贸prio Tir茅sias 鈥 todos obedeciam a uma m谩quina rigorosa, uma m谩quina infernal, para usar uma express茫o de Cocteau. Quanto a n贸s, espectadores, sab铆amos que nada podia impedir o desfecho terr铆vel; mas sab铆amos tamb茅m isto: que o texto de S贸focles nos obriga a pensar tudo outra vez, vez ap贸s vez: os argumentos do poder, as consequ锚ncias da revolta, a responsabilidade de todas as partes quando as leis colidem, e eis-nos desamparados no instante da decis茫o inadi谩vel, sem rede, sem solo firme. Num livro chamado Ant铆gonas, George Steiner mostra que o debate aberto pela pe莽a nunca mais foi esgotado: de cada vez que a trag茅dia sobe ao palco, os fundamentos do mundo voltam a ser interrogados.

Era esta a proposta de Nuno Carinhas: expor o poder, mostrar o que podem aqueles que t锚m a lei do seu lado; mas tamb茅m o que pode aquela que s贸 pode desobedecer. Vivemos hoje tempos que se definem, reza a doxa, pela aus锚ncia de alternativas, pelo pensamento 煤nico, por uma homogeneiza莽茫o globalizada dos comportamentos; uma frase popular e muito glosada diz que 茅 mais f谩cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, o fim do poder tal como o conhecemos, o fim das institui莽玫es e do statu quo. S贸focles, por茅m, afirma que qualquer lei pode ser desafiada. Claro, Ant铆gona sabe que a insubordina莽茫o conduz ao sacrif铆cio e 脿 morte; mas o essencial 茅 haver uma alternativa. E Creonte, que julga incarnar soberanamente a lei do mundo, descobre pelo contr谩rio que n茫o passa de uma pe莽a condenada pelo destino.

Lembro-me: numa das 煤ltimas cenas 鈥 talvez mesmo a 煤ltima 鈥 em que vemos Ant铆gona, ela desce as escadas que cortam a enigm谩tica forma circular do palco. Ela desce, degrau a degrau, a despedir-se da luz do dia. E de cada vez que pisa um novo degrau falha-lhe a voz; como acontece quando, 脿s escuras, descemos escadas, e embatemos num patamar onde esper谩vamos um degrau, ou, mais violentamente, sentimos o vazio de um novo degrau onde cont谩vamos com um patamar. Como a nossa voz falha, por um breve instante, no assombro daquele v谩cuo, assim a voz de Maria do C茅u Ribeiro falhava, degrau a degrau, como quem ca铆sse. Era quase nada, s贸 uma tremura, 铆nfima cesura dentro da s铆laba: mas naquele estalar da voz cabia de repente um medo profundo e humano, que de maneira nenhuma a faria voltar atr谩s, pedir miseric贸rdia. Era um medo instintivo, irreprim铆vel, que nascia do corpo, n茫o da raz茫o.

Era um medo 铆ntimo, 煤ltimo tremor de quem sabe que vai morrer, e nunca Ant铆gona foi mais real.

*Escritor.

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26-28 Mar莽o + 7-23 Abril 2010 Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Ant铆gona

de S贸focles
encena莽茫o Nuno Carinhas
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna