O representador

Fernando Cabral Martins*

Fui ver Casas Pardas com a grande expectativa que acompanha sempre uma ida ao teatro. Arte por excel锚ncia, universal das artes, a mais antiga das artes, coloca todos os problemas metaf铆sicos e resolve-os pelo conhecimento pr谩tico, pela evid锚ncia imediata dos sentidos.

Por exemplo, a magna quest茫o da identidade. Quem sou eu? Que sabemos irresol煤vel, primeiro porque n茫o conseguimos ver-nos a n贸s pr贸prios com dist芒ncia real e suficiente, e depois porque, afinal, estamos a mudar constantemente. Mas, no teatro, no grande teatro, vemos a arte dos actores, capazes de levantar personagens perante n贸s sem qualquer ilusionismo, s贸 pelo poder de metamorfose a que chamamos teatro. E toda a personagem 茅 uma identidade n铆tida, forte, sem inibi莽玫es de comunidade nem limites de bom comportamento.

No programa de sala de Casas Pardas est茫o (belas) fotografias de actores que t锚m a caracter铆stica curiosa de parecer um fresco de exemplos do humano. A beleza f铆sica que existe n茫o 茅 determinante da observa莽茫o. As estaturas, a estranheza das singularidades, os semblantes em pose mostram aquilo que nos actores e na sua arte os torna representadores do sagrado. Fazem com que a soberania, a velha aspira莽茫o a uma vida harmoniosa, o grande estilo, sejam realidades observ谩veis, como se pudesse existir um espa莽o em que a dificuldade de viver e a falta de sentido n茫o existissem, isto 茅, um espa莽o de perfeito dom铆nio e conhecimento de si, uma coincid锚ncia triunfal do corpo com as palavras.

Suponho que s贸 茅 poss铆vel esta sensa莽茫o de quem v锚 fotografias apenas porque h谩 por detr谩s uma mem贸ria do espect谩culo Casas Pardas. O grande teatro operou nele a arte m谩gica que torna o mundo compreens铆vel, e que sempre provoca a alegria que nos cura. A catarse de que fala Arist贸teles 茅 um resultado precioso da experi锚ncia do teatro, como do cinema ou da literatura, que s茫o artes da refunda莽茫o do sentido.

Na minha mem贸ria profunda, aquela a que n茫o se tem acesso, 茅 poss铆vel que todo o espect谩culo esteja gravado, mas na mem贸ria que me resta h谩 todo um envolvimento de pormenores e escolha de aspectos que t锚m a ver com acaso. Aquilo de que nos lembramos 茅 uma constru莽茫o nossa, sem d煤vida mais do que uma ru铆na, que seria ainda um resto do que aconteceu. Mas depois descemos a um outro plano em que 茅 j谩 o afecto que ensina a verdade, e 茅 nesse plano que sei, por exemplo, que era um grande espect谩culo, e porqu锚: juntava uma escrita t茫o singular como a de Maria Velho da Costa 鈥 apoteose e vertigem da narrativa moderna, com Jorge de Sena, Agustina, Nuno Bragan莽a e poucos mais 鈥 a uma escola de teatro de exig锚ncia exemplar.

Al茅m, ou l谩 por dentro do afecto memorial, est谩 tamb茅m a luz. Que neste caso era opalescente, como se estivesse saturada de mem贸ria, e metaf贸rica, como se quisesse indicar aquele tempo obscuro de opress茫o que trazia consigo. Havia jogos que implicavam mudan莽as bruscas, zonas que apareciam iluminadas fortemente e depois se dissolviam na luz dif铆cil que desenhava uma cena dram谩tica. Porque a luz era uma personagem, e das mais fortes, em Casas Pardas.

Quer dizer: nem dentro nem fora, naquele meio-interior meio-exterior que 茅 um quintal ou um jardim, as personagens evolu铆am num regime de nenhuma tens茫o naturalista, mas tamb茅m sem nada de fe茅rico. Poderia dizer-se tamb茅m um espa莽o com dois planos, parecido com o das palavras, que existem no campo da imagina莽茫o ao mesmo tempo que t锚m formas materiais. Mas, talvez melhor, o espa莽o que o teatro encontrara, com os movimentos e os focos de luz que lhe davam exist锚ncia, era sobretudo interessante como um trabalho de arque贸logo, em que os assentos e fragmentos s茫o analisados como caminhos para a descoberta de uma habita莽茫o natural. Assim, aquele palco era o lugar onde o romance podia enfim nascer, pois operava a conjuga莽茫o das palavras e da energia que 茅 propiciadora do nascimento de um mundo.

Pois o teatro 茅 onde a realidade nasce. Imprescind铆vel 脿 vida, como o oxig茅nio 脿 cidade. Ao cuidado de quem sofre como n贸s, cada vez mais, de pouca realidade.

*Escritor, professor.

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6-23 Dezembro 2012 Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Casas Pardas

de Maria Velho da Costa
dramaturgia Lu铆sa Costa Gomes
encena莽茫o Nuno Carinhas | produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna