Um Ricardo III mudo

Nuno Cardoso*

Uma plateia de um. Um, dois, tr锚s, quatro鈥 Come莽ava assim uma das cenas do Porto Monocrom谩tico, excruciante para a actriz e para o p煤blico que assistia. O objectivo era fazer sentir o tempo, dar ao aborrecimento uma medida, logo a seguir a uma cena fren茅tica em que os actores cruzavam o palco em supostas conversas de telem贸vel, rasg玫es verbais que supunham denunciar a invasividade da tecnologia, do empreendedorismo, ou a simples futilidade da privacidade, partilhada por meios de comunica莽茫o que a tornam banal.

11, 12, 13鈥 Poder谩 parecer pedante ou egoc锚ntrica a escolha de um espect谩culo em que tomei parte como co-criador para figurar nestes 100 depoimentos que, de alguma forma, perfazem a quadratura do c铆rculo destes 28 anos de actividade do S茫o Jo茫o. Se houve muitos dos seus espect谩culos que me marcaram, s贸 dois deles, de facto, me mudaram profundamente a vida. Do segundo, a hist贸ria n茫o cabe numa p谩gina, e certamente n茫o nesta p谩gina. Este Porto Monocrom谩tico destaca-se pela circunst芒ncia de provavelmente eu ter sido o 煤nico espectador que, de facto, lhe prestou aten莽茫o. Embora irritado na altura, e de cada vez que o revejo, foi o espect谩culo mais importante da minha vida. Porto Monocrom谩tico foi um estrondoso fracasso, um tonitruante trambolh茫o em directo, com direito a uma parangona cr铆tica (鈥淐aos Policrom谩tico鈥) e ao espanto at贸nito de uma plateia desanimada e sofrida ap贸s tr锚s horas de bizarria. Acima de tudo, foi uma ruptura com os meus colegas co-criadores.

23, 24, 25鈥 Porto Monocrom谩tico era como uma sopa de pedra, uma incr铆vel am谩lgama de cita莽玫es, extrapola莽玫es, fotos roubadas 脿 sec莽茫o de teatro da antiga livraria Leitura, v铆deos da Pina Bausch visionados saltando frames, ou livros a citar Strehler. Tudo era colado 脿 for莽a de voluntarismo, de infind谩veis discuss玫es e de muita inoc锚ncia ou perversidade, dependendo das mem贸rias de quem conta a hist贸ria do Porto Monocrom谩tico.

36, 37, 38鈥 No palco do S茫o Jo茫o, o espect谩culo desenrolava-se descosido, era a minha tentativa de uma gesamtkunstwerk. Acima de tudo, era um exerc铆cio com toda a maquinaria de cena, toda a profundidade e largura de um palco, sem compreender que, num teatro, a parte mais importante 茅 a plateia.

46, 47, 48鈥 Todos os anos retorno 脿 cassete VHS do Porto Monocrom谩tico. Como espectador, foi uma li莽茫o imensa sobre o tempo, a humildade, a imperceptibilidade, a incapacidade de as melhores inten莽玫es ultrapassarem a quarta parede e chegarem ao 芒mago dos olhos, dos ouvidos e do peito de quem est谩 sentado do outro lado. Foi uma li莽茫o sobre a necessidade absoluta de permeabilidade dessa parede. Portanto, como espectador, Porto Monocrom谩tico foi o pior espect谩culo a que assisti, mas foi o melhor em que alguma vez pus a m茫o.

53, 54, 55鈥 Nos anos 90, n茫o havia escolas nem mestres, n茫o havia grande coisa no Porto. Havia, sim, espa莽os, liberdade, possibilidade de imaginar. Isso permitiu-nos, a mim e a todos os meus colegas, ir fazendo e aprendendo. Porto Monocrom谩tico n茫o passou disso, um livro em branco, um caderno da Firmo, como os que ainda hoje uso, onde fui aprendendo a estar em palco e a perceber que n茫o se faz outra coisa sen茫o o que outros j谩 fizeram, mas de outra maneira, com outro cora莽茫o, outros olhos e ouvidos, sempre para o mesmo interlocutor: o p煤blico.

65, 66, 67鈥 No final de uma apresenta莽茫o do Porto Monocrom谩tico, um dos meus melhores amigos, sem saber o que me dizer, comentou: 鈥淭ens uma profunda compreens茫o sobre a passagem do tempo.鈥 Fiquei todo orgulhoso. Hoje, rio-me da sua sagacidade, porque se esquivou a apontar-me a inanidade do que eu fizera. Fosse por respeito aos meus colegas, ou por espanto ou aborrecimento, nada mais tinha a dizer.

71, 72, 73鈥 Mas havia alguma coisa a dizer naquele espect谩culo. Havia tudo o que tenho dito nestes 23 anos posteriores, porque nunca de l谩 sa铆. Ali me confrontei com a incomunicabilidade, o sil锚ncio, o amor, o desejo, a tristeza, a irascibilidade, a tortura; e com o div贸rcio entre o eu e o eu outro, que s贸 muito mais tarde percebi. Ali comecei todos os meus espect谩culos. Por isso 茅 que, ainda hoje, antes de come莽ar novo espect谩culo, compro um caderno da Firmo.

80, 81, 82鈥 Porto Monocrom谩tico 茅, 脿 minha maneira, a mem贸ria de um Porto que o tempo j谩 esqueceu, um tempo de cria莽茫o e fertilidade que viu nascer o Teatro Nacional S茫o Jo茫o, bem a meio desses anos 90, em que as companhias independentes cresciam como ervas daninhas e em que era mais f谩cil e inocente sermos criadores. Um tempo cuja actividade cunhou o Porto como cidade emergente e que pariu a Porto 2001, e que estranhamente s贸 茅 lembrado quando outros tempos se defendem. Porto Monocrom谩tico 茅 talvez o filho corcunda desse tempo, um Ricardo III mudo, porque n茫o tinha nem a verve nem o desplante dessa personagem, e sobretudo n茫o teve o seu fim, n茫o desapareceu a pedir um cavalo, o meu reino por um cavalo, simplesmente feneceu de mansinho, quando a actriz chegou ao n煤mero 97, ano em que foi feito.

*Encenador, ator. Diretor art铆stico do Teatro Nacional S茫o Jo茫o.

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9-11 Maio 1997
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Porto Monocrom谩tico

cria莽茫o Vis玫es 脷teis
dire莽茫o Nuno Cardoso
coprodu莽茫o Vis玫es 脷teis, Teatro Nacional S茫o Jo茫o
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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna