“Posso lhe confessar um segredo?”

Francisca Carneiro Fernandes*

Em um dos primeiros dias do mês de junho de 2004, num fim de tarde de um dia quente, entrei no Salão Nobre do Teatro São João para assistir a mais um espetáculo do Portugofonia, ciclo de teatro brasileiro programado por Ricardo Pais. Tratava-se de Hysteria, uma criação do Grupo XIX de Teatro.

Logo que entrei fui conduzida por uma das atrizes – que, mesmo antes de o espetáculo se iniciar, andava entre os espectadores, observando-os e cumprimentando-os à entrada – para um lugar específico de um dos vários bancos corridos que circundavam a sala principal do Salão Nobre. Creio que é relevante referir que eu iniciara funções no Teatro Nacional São João menos de dois anos antes dessa data, tendo, em setembro de 2002, assumido a subdireção administrativa e financeira que integrava a Direção já formada e experiente de Ricardo Pais e Salvador Santos. Devo desde já confessar que o facto de ter todo o público masculino concentrado numa bancada que se situava exatamente do lado oposto aos lugares reservados para mulheres, e de nela reconhecer muitas das caras de técnicos e demais trabalhadores daquela Casa, me deixou, de início, um pouco intimidada. Não me esqueço também de que, entre as senhoras sentadas nos ditos bancos corridos, estava, um pouco depois de mim, a grande Senhora do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro.

O desconforto aumentou um pouco quando percebi que uma das (creio que) sete personagens femininas daquele lugar, que era afinal uma casa onde estavam internadas mulheres por sofrerem de algo que, na altura, era diagnosticado como “histeria”, se sentou ao meu lado e começou a interpelar-me, fazendo-me perguntas desde os primeiros segundos sentidas como “estranhas” e, logo depois, percebidas como assustadoramente invasivas da minha intimidade. A dita personagem tinha sido internada por ter matado o filho recém-nascido, convicta­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ de que desse modo recuperaria o amor pleno do pai da criança. Face ao meu avançadíssimo estado de gravidez – a enorme “barriguinha” dos oito meses de gestação era bastante notória –, a doce rapariga perguntava-me o que é que eu escolheria se tivesse de optar entre o amor daquela criança e o amor do pai dela…

O óbvio e natural embaraço inicial que senti perante aquela situação rapidamente evoluiu para um profundo envolvimento em toda a belíssima cena que aquelas atrizes criaram. Em poucos minutos de espetáculo, acabei por esquecer completamente que não só estava no meu local de trabalho como perante o olhar atento de inúmeros estranhos. E vi-me de tal forma embrenhada e comovida com a estória incrível que aquelas mulheres nos contavam, que acabei por responder a todas as questões e pedidos que me foram sendo feitos, como se estivesse numa sala sozinha com elas. A tal sala de hospital onde nos contavam as suas ideias e feitos, onde exprimiam os motivos das suas angústias, onde uma delas se preparava diariamente, convicta de que era nesse dia que o marido a iria buscar…

Recordo-me também do embaraço que depois senti, ao tomar consciência da incapacidade de conter ou disfarçar as lágrimas de comoção que a estória daquelas mulheres provocou em mim. Em pouco tempo, abdiquei totalmente do esforço de controlar as emoções e rendi-me completamente à força daquele belíssimo espetáculo.

Acabei o espetáculo descomposta em todos os sentidos: lavada em lágrimas, embaraçada perante a “nudez” que aquele momento tinha provocado, descalça e a aceitar casar com uma daquelas mulheres inesquecíveis.

Julgo que a experiência que aqui descrevo terá sido talvez das mais fortes que vivi, no sentido de me permitir perceber verdadeiramente o poder que a conjugação de um texto extraordinário, uma boa encenação, excelentes atores e atrizes, e demais componentes que fazem um bom espetáculo de teatro, pode ter no nosso quotidiano e no nosso pensamento crítico sobre o mundo.

*Diretora-Geral da Unidade Orgânica da Cultura da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, S.A. E.M. Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional São João entre 2009 e 2018.

_

1-4 Junho 2004
Teatro Nacional São João

Hysteria

criação Grupo XIX de Teatro
encenação Luiz Fernando Marques | produção Cooperativa Paulista de Teatro | Ciclo Portugofonia/XXVII Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

_

in O Elogio do Espectador: 100 espetáculos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centenário | 1 _

fotografia João Tuna