A “ideia da reticência”: António M. Feijó e Pedro Mexia apresentaram os primeiros livros da Empilhadora

Stanley Cavell não era um crítico shakespeariano nem conhecia “a literatura crítica shakespeariana”, e Roger Grenier não era “um especialista na literatura russa”. Ambos são, no entanto, os dois autores que o Teatro Nacional São João (TNSJ) elegeu para, com volumes sobre William Shakespeare e Anton Tchékhov, colocar em andamento a Empilhadora, a nova coleção que reúne títulos de história e estética teatral, ensaio e biografia, apresentada este sábado com a presença do professor universitário António M. Feijó e do poeta e crítico Pedro Mexia.

“A posição de Cavell já ia contra a crítica de shakespeariana no seu tempo. Ainda hoje muitos críticos shakespearianos olham para o que ele faz como uma coisa muito estranha.” Stanley Cavell, filósofo americano e professor emérito da Universidade de Harvard, ter-se-á, porventura, notabilizado com a sua obra sobre Wittgenstein, Austin ou Emerson. Contudo, de acordo com António M. Feijó, foi precisamente a partir da sua base académica que o autor de O Repúdio do Conhecimento em Sete Peças de Shakespeare, obra que o TNSJ dá agora a conhecer, fez o seu caminho na exegese do dramaturgo. “O que ele faz com as peças de Shakespeare é uma análise a partir de uma problemática filosófica muito precisa: é a problemática do ceticismo.” Segundo Cavell, “Shakespeare tematiza como ninguém esta problemática do ceticismo em relação não ao mundo, mas em relação às outras pessoas.” “E é verdade”, diz Feijó. Daniel Jonas, no prefácio a O Repúdio do Conhecimento, reitera o carácter disruptivo da obra: é “uma antologia de ensaios shakespearianos de um não shakespeariano tornado uma autoridade entre shakespearianos”.

“Evitar o amor: uma leitura de Rei Lear”, o ensaio de que parte este volume, é, diz António M. Feijó, “monumental.” “É a análise das relações entre pais e filhos, a terrível relação que é a relação entre pais e filhos, porque é um misto de afeto e de escusar-se a mostrar-se, de evitar a demonstração de afeto.” “Cavell está a ler estas personagens como se fossem pessoas, mas, para a crítica do tempo, isto era muito bizarro, porque nessa altura, a crítica literária já achava que as personagens não era pessoas, eram configurações ou padrões de palavras, ou estruturas de palavras.”

E, no ensaio sobre Hamlet, quando Cavell explica os sucessivos motivos que fazem perder as personagens trágicas de Shakespeare, encontramos o mote para o título da obra: “Nos casos do Rei Lear, de Otelo, de Coriolano e de Leonte [personagem de O Conto de Inverno], a tragédia é o resultado de um peso do conhecimento que a pessoa sente. Um peso terrível com o qual tem de lidar.”

O segundo livro apresentado, Olhai a Neve a Cair – Impressões de Tchékhov, do jornalista, escritor e editor francês Roger Grenier, é um ensaio biográfico “em fragmentos” que, do ponto de vista de Pedro Mexia, “se adequa às peças” do autor russo.

Olhai a Neve a Cair, uma obra que traça o percurso de vida de Tchékhov em “impressões”, que “dialoga com os contos e as peças, com os testemunhos de contemporâneos e também com o Tchékhov escritor de cartas”, difere do método das biografias anglo-saxónicas na medida em que carece de “uma sólida estrutura”, diz Mexia. E é nesse sentido que é coerente com a dramaturgia do russo. “O que foi sempre criticado a Tchékhov, ainda em vida, foi as peças não terem estrutura, serem peças onde não acontecia nada, onde se conversava sobre coisa nenhuma e onde não se percebia como é que aqueles fragmentos de coisa nenhuma se articulavam numa peça de teatro digna desse nome.” Se Grenier “às vezes é muito pessoal, às vezes muito lacónico”, por outro lado também assina em Olhai a Neve a Cair capítulos que “são muito parecidos com uma exegese literária” – mesmo que Grenier não fosse sequer um especialista em literatura russa.

Coexistem em Tchékhov, com elegância, um tom elegíaco e uma vocação cómica – mas um humor “que não tem a ver com o riso”, diz o crítico. O “treino cómico” de Tchékhov, cujas origens aliás Grenier identifica, leva-o a colocar em evidência “a desproporção entre as coisas grandes e as pequenas: entre as ambições das personagens e o que realmente conseguiram”, ou de “pessoas que falam como se fossem mais velhas do que realmente são.” Há também “uma espécie de igualdade de atenção entre as grandes questões e a trivialidade. As grandes questões aparecem a propósito de coisas triviais.” E os temas não surgem necessariamente de modo evidente – há um “lado não-explicativo” que não expõe, antes sugere. “Essa ideia da reticência”, define Mexia.

Os dois primeiros livros da coleção Empilhadora, O Repúdio do Conhecimento em Sete Peças de Shakespeare, de Stanley Cavell, e Olhai a Neve a Cair – Impressões de Tchékhov, de Roger Grenier, podem ser adquiridos no Teatro São João, na livraria Poetria ou através do email poetria@tnsj.pt.