Um tempo suspenso

ISABEL BABO*

Relembro as traves em madeira da casa e a bela encena莽茫o despojada, de cujos parcos objectos resulta um ambiente pobre, at谩vico e religioso. A ac莽茫o em cena fica subordinada ao uso e ao costume, 脿 tradi莽茫o, 脿 religi茫o, 脿 fam铆lia patriarcal, 脿 submiss茫o da mulher. Estes quadros referenciais e repert贸rios de ac莽茫o amalgamam-se, produzindo significa莽玫es que, por sua vez, convocam horizontes de sentido. Entre estes e o campo da experi锚ncia 茅 (sempre) o tempo que estrutura a pe莽a. Esta organiza-se em torno das tens玫es entre os universos feminino e masculino, entre o corpo e o desejo e a moral e os costumes, tanto quanto em rela莽茫o ao tempo marcado pela promessa. Um tempo suspenso 鈥 porque a promessa introduz a suspens茫o do tempo 鈥 em conson芒ncia com o regime pol铆tico autorit谩rio e isolado, com a aus锚ncia de liberdade, a tradi莽茫o mesquinha, a sociedade fechada e, em particular, com a ordem da necessidade sem lugar para a emancipa莽茫o, para o novo e o imprevis铆vel.

O futuro, como a ac莽茫o ou a iniciativa, est谩 capturado pela promessa. A promessa 茅 futura莽茫o que elimina consequ锚ncias e circunst芒ncias imprevis铆veis, porque ela se cumpre num tempo que se quer necess谩rio. Fazer uma promessa 茅 encerrar o futuro no presente e, deste modo, erradicar a novidade, a liberdade, a conting锚ncia e, desta feita, a pr贸pria vida. Logo, o universo que nos 茅 proposto nesta intensa pe莽a 茅 irrepreensivelmente coerente: nem liberdade nem futuro para construir.

Maria do Mar, a mulher subjugada, cuja situa莽茫o 茅 ditada pelo aprisionamento em que o marido a colocou a ela e a si pr贸prio, n茫o se conforma 鈥 e Joana Carvalho expressa-o com veem锚ncia em cena 鈥, mas n茫o escapa a esse destino. O marido, Jos茅, encontra-se amarrado pelo futuro que enunciou para si pr贸prio: a promessa. Esta, no quadro do casamento, instituiu um continuum presente em priva莽茫o e abafou o corpo e o desejo, aos quais Maria do Mar n茫o aceita renunciar.

Por茅m, a fenomenologia da promessa (nas suas formas de contrato, voto, juramento) n茫o exclui n茫o manter a promessa feita. 脡 da pr贸pria natureza da promessa poder n茫o ser mantida. Mas Jos茅 mant茅m-na, tendo ficado aprisionado na identidade que se auto-atribuiu. Paul Ricoeur, em Soi-m锚me Comme un Autre (1990), coloca a capacidade de prometer, e a possibilidade de manter a palavra, como fen贸meno de desdobramento (saindo da primeira pessoa), ou de reflexividade de si, numa outra identidade (identit茅-ips茅it茅). Jos茅 est谩 preso na obriga莽茫o moral de manter a palavra e ser谩 impelido 脿 destrui莽茫o 鈥 a promessa instituiu um devir de si como um outro. Sem liberdade gra莽as 脿 promessa, assim permanecer谩 depois, em resultado do crime que vir谩 a cometer.

Hannah Arendt, em The Human Condition (1958), liga o perd茫o 脿 promessa, que s茫o da ordem da rela莽茫o com o outro. O perd茫o desliga, porque alivia o fardo por vezes esmagador das ac莽玫es cometidas no passado; a promessa vincula, compensando a imprevisibilidade e a incerteza do futuro. Poderia o perd茫o libertar da promessa, mas a Bernardo Santareno importou, de modo inabal谩vel, confrontar-nos com um universo de aus锚ncias: de futuro, liberdade, emancipa莽茫o e prazer. A rela莽茫o de Jos茅 com Maria do Mar 茅 uma n茫o-rela莽茫o. Poderia ter sido da ordem da vincula莽茫o, implicando ac莽茫o e destinat谩rio (prometo amar-te, prometo levar-te comigo鈥).

Ora, a promessa n茫o captura somente o tempo, como tamb茅m a mem贸ria. A promessa dita a irreversibilidade do que aconteceu e a lembran莽a 鈥 Jos茅 e Salvador, o pai, ficam irremediavelmente ligados ao acontecimento tr谩gico no mar. Logo, tamb茅m Salvador 鈥 o not谩vel Jorge Mota 鈥 fica retido no passado. A promessa interdita o esquecimento, quando a l贸gica da vida compreende, igualmente, o direito a esquecer. Na pe莽a, h谩 esse poder da mulher que est谩 dispon铆vel para o esquecimento, para o prazer, para a liberdade, mas, no final, 茅 fatalmente o statu quo que prevalece e que impede a abertura a um (outro) futuro.

Em 2017, estive na estreia desta admir谩vel encena莽茫o e impressionante representa莽茫o de A Promessa, com a convic莽茫o (e como莽茫o) de que o meu pai assistiu a esta pe莽a, em 1957, porque estimava Bernardo Santareno, o Teatro Experimental do Porto e Ant贸nio Pedro. Senti que revisitei um texto intemporal.

*Reitora da Universidade Lus贸fona do Porto.

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16 Novembro 鈥 3 Dezembro 2017
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

A Promessa

de Bernardo Santareno
encena莽茫o Jo茫o Cardoso
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna