Isto esteve para ser um s铆tio com um nome

Pedro Sobrado

N茫o foi um 锚xito de p煤blico. Com este espect谩culo n茫o poder铆amos anunciar, como t茫o abusivamente se costuma hoje fazer, um novo recorde de assist锚ncia, uma daquelas taxas de ocupa莽茫o de sala que mais fazem lembrar os resultados das sham elections de alguns regimes. Visto a partir da folha de c谩lculo, n茫o 茅 espect谩culo que possa agradar a um administrador. Acho que tamb茅m n茫o foi lembrado nos t茫o previs铆veis balan莽os do ano promovidos pela imprensa. Passou ao lado, dir-se-ia, vindo logo aninhar-se na minha mem贸ria como apenas alguns espect谩culos, poucos, fizeram. De vez em quando, sai do escaninho da alma para me fazer rir, ou enternecer: 鈥淢uito prazer. Chamo-me Empregado e a 煤nica alegria 茅 a vida.鈥 (Ou, ent茫o, faz armar-me em parvo quando se descasca uma banana l谩 em casa: 鈥溍 enorme, fora da propor莽茫o portuguesa!鈥) Algumas pessoas disseram-me 鈥渙 espect谩culo n茫o se percebe鈥, como se o teatro fosse um lugar para perceber. O teatro 茅 um lugar para desperceber, mais do que para perceber; um lugar para receber d煤vidas como d谩divas, n茫o tanto para obter o fraco consolo de uma resposta. 鈥淢uito mais dif铆cil do que responder 茅 perguntar鈥, dizia o papillon noir 鈥 ou anjo, luminoso e lutuoso como s贸 o teatro consegue ser 鈥 que adejava pelo espect谩culo afora. Sinto-lhe agora a falta quando chego ao S茫o Jo茫o e, aguardando pelo elevador, espreito para dentro da caixa negra de palco, e ela est谩 vazia como uma concha e tem a cortina de ferro descida. 鈥淧ara onde 茅 que o senhor deseja ir?鈥

Exactamente Antunes era um espect谩culo dif铆cil porque era muito f谩cil. Estou hoje convencido de que uma crian莽a o compreenderia melhor do que um adulto, com a sua cristalizada gram谩tica perceptiva. Solicitava a ingenuidade 鈥 o santo-e-senha de Almada 鈥 que nos 茅 t茫o dif铆cil e que, por vezes, nos esfor莽amos, em v茫o, por recuperar ou adquirir. O empregado de mesa devinha motorista, a Boca do Inferno fazia-se aldeia do Portugal profundo, a cidade revelava-se interior de uma cabe莽a. A cena 茅 playground, uma manta que estendemos e sobre a qual vamos depois brincar, t茫o seriamente. Exactamente Antunes brincava ao teatro: trag茅dia cl谩ssica, com茅dia rom芒ntica, musical (falhad铆ssimo), drama cerebral. Destro莽os de realidade 鈥 tr锚s degraus, uma chaise longue, cadeiras, uma porta 鈥 lembravam os peda莽os de coisas que a crian莽a encontra e com os quais desenvolve uma nova, inesperada rela莽茫o. N茫o era um espect谩culo infantil, o assunto era s茅rio, t茫o antigo quanto a esfinge: como se chega a ser o que se 茅, e o luto sem o qual n茫o h谩 identidade.

Talvez por isso me tenha afei莽oado tanto 脿 Maria, o fantasma a que Joana Carvalho dava corpo, com um par de asas e um vestido preto enxameado de luzinhas a tremeluzir como vaga-lumes numa noite de prov铆ncia. Vejo-a ainda, com uma velinha bruxuleante no breu do palco, ou a balan莽ar ao som de um foxtrot, socos de madeira nos p茅s. Tornou-se para mim meton铆mia do pr贸prio teatro, por ser a emana莽茫o espectral de uma culpa, ou de uma falta dif铆cil de definir, mas tamb茅m o corpo que se faz presente e ajuda o her贸i a ser t茫o exactamente. N茫o existia, foi inventada: 茅 uma personagem que o teatro doou 脿 literatura. Almada n茫o a conhecia bem, foi preciso que Jacinto Lucas Pires lha apresentasse. Vem-me agora tamb茅m 脿 mem贸ria a cena de abertura, imprevista pelo texto, na qual um filisteu (Paulo Freixinho) traz o ne贸fito Antunes (Jorge Mota): inicia-o com uma dan莽a pelo palco despido, ao som de um brando mar portugu锚s, conduzindo-o at茅 脿 boca de cena, como se ali chegasse ao Cais das Colunas. O espect谩culo dava-nos a ver um Antunes e uma Judite consideravelmente mais velhos do que o texto conta 鈥 鈥淒ezanove anos?!鈥 鈥, como se a inicia莽茫o fosse coisa sempre por acabar, o que sucedera tamb茅m com o Ad茫o e a Eva do Breve Sum谩rio da Hist贸ria de Deus que Nuno Carinhas encenara anos antes. No seu humor e no seu m茅todo, o espect谩culo era, ali谩s, t茫o Nuno Carinhas, apesar de ter sido partilhado com Cristina Carvalhal. 鈥淥 qu锚 com letra mai煤scula?鈥 Era t茫o dele, precisamente por ser partilhado, n茫o fosse a palavra partilha um termo-chave do seu l茅xico enquanto artista.

H谩 um ano, reencontrei a porta de Exactamente Antunes na F茅 vicentina com que Nuno Carinhas se despediu do TNSJ como director art铆stico. Gosto tanto desses reencontros: do carro de m茫o d鈥Os Gigantes da Montanha que, 15 anos depois, reaparece no Breve Sum谩rio da Hist贸ria de Deus; do casaco do artilheiro de Tambores na Noite que regressa 脿 frente da batalha n鈥Os 脷ltimos Dias da Humanidade; desta porta por onde via ent茫o entrar pastores 鈥渁tibobados鈥 que, ignorando tudo, sabiam o principal: 鈥淓l que pregunta 帽o yerra.鈥 Saturados de mem贸ria, estes objectos tornam-se palimpsestos, como afinal o pr贸prio corpo dos actores, sujeito a tantas reescritas. Lembram-me um poema de Brecht sobre as amolgaduras dos jarros de cobre e os cabos das facas usadas por muitas m茫os 鈥 coisas 鈥渆ntradas no uso de muitos,/ muitas vezes alteradas, melhoram a sua forma e fazem-se saborosas,/ porque muito saboreadas鈥. Por raz玫es de seguran莽a, as portas de um teatro abrem sempre para fora. Portas como esta, contudo, abrem para dentro, para essa zona de acesso reservado a que chamamos 铆ntimo e onde, por vezes, conservamos de um espect谩culo de teatro, por muito e muito tempo, um sinal apenas 鈥 ou uma palavra. 鈥淕uarda-a bem, meu amor, e ela guardar-te-谩 a ti.鈥

*Dramaturgista, professor.

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17 Mar莽o 鈥 17 Abril 2011
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Exactamente Antunes

de Jacinto Lucas Pires
a partir de Nome de Guerra, de Almada Negreiros
encena莽茫o Cristina Carvalhal, Nuno Carinhas
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna