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Isto esteve para ser um sítio com um nome

Isto esteve para ser um sítio com um nome
Não foi um êxito de público. Com este espectáculo não poderíamos anunciar, como tão abusivamente se costuma hoje fazer, um novo recorde de assistência, uma daquelas taxas de ocupação de sala que mais fazem lembrar os resultados das _sham elections_ de alguns regimes. Visto a partir da folha de cálculo, não é espectáculo que possa agradar a um administrador. Acho que também não foi lembrado nos tão previsíveis balanços do ano promovidos pela imprensa. _Passou ao lado_, dir-se-ia, vindo logo aninhar-se na minha memória como apenas alguns espectáculos, poucos, fizeram. De vez em quando, sai do escaninho da alma para me fazer rir, ou enternecer: “Muito prazer. Chamo-me Empregado e a única alegria é a vida.” (Ou, então, faz armar-me em parvo quando se descasca uma banana lá em casa: “É enorme, fora da proporção portuguesa!”) Algumas pessoas disseram-me “o espectáculo não se percebe”, como se o teatro fosse um lugar para perceber. O teatro é um lugar para _desperceber_, mais do que para perceber; um lugar para receber dúvidas como dádivas, não tanto para obter o fraco consolo de uma resposta. “Muito mais difícil do que responder é perguntar”, dizia o _papillon noir_ – ou anjo, luminoso e lutuoso como só o teatro consegue ser – que adejava pelo espectáculo afora. Sinto-lhe agora a falta quando chego ao São João e, aguardando pelo elevador, espreito para dentro da caixa negra de palco, e ela está vazia como uma concha e tem a cortina de ferro descida. “Para onde é que o senhor deseja ir?” _Exactamente Antunes_ era um espectáculo difícil porque era muito fácil. Estou hoje convencido de que uma criança o compreenderia melhor do que um adulto, com a sua cristalizada gramática perceptiva. Solicitava a ingenuidade – o santo-e-senha de Almada – que nos é tão difícil e que, por vezes, nos esforçamos, em vão, por recuperar ou adquirir. O empregado de mesa devinha motorista, a Boca do Inferno fazia-se aldeia do Portugal profundo, a cidade revelava-se interior de uma cabeça. A cena é _playground_, uma manta que estendemos e sobre a qual vamos depois brincar, tão seriamente. _Exactamente Antunes_ brincava ao teatro: tragédia clássica, comédia romântica, musical (falhadíssimo), drama cerebral. Destroços de realidade – três degraus, uma _chaise longue_, cadeiras, uma porta – lembravam os pedaços de coisas que a criança encontra e com os quais desenvolve uma nova, inesperada relação. Não era um espectáculo infantil, o assunto era sério, tão antigo quanto a esfinge: _como se chega a ser o que se é_, e o luto sem o qual não há identidade. Talvez por isso me tenha afeiçoado tanto à Maria, o fantasma a que Joana Carvalho dava corpo, com um par de asas e um vestido preto enxameado de luzinhas a tremeluzir como vaga-lumes numa noite de província. Vejo-a ainda, com uma velinha bruxuleante no breu do palco, ou a balançar ao som de um _foxtrot_, socos de madeira nos pés. Tornou-se para mim metonímia do próprio teatro, por ser a emanação espectral de uma culpa, ou de uma falta difícil de definir, mas também o corpo que se faz presente e ajuda o herói a ser tão _exactamente_. Não existia, foi inventada: é uma personagem que o teatro doou à literatura. Almada não a conhecia bem, foi preciso que Jacinto Lucas Pires lha apresentasse. Vem-me agora também à memória a cena de abertura, imprevista pelo texto, na qual um filisteu (Paulo Freixinho) traz o neófito Antunes (Jorge Mota): inicia-o com uma dança pelo palco despido, ao som de um brando mar português, conduzindo-o até à boca de cena, como se ali chegasse ao Cais das Colunas. O espectáculo dava-nos a ver um Antunes e uma Judite consideravelmente mais velhos do que o texto conta – “Dezanove anos?!” –, como se a iniciação fosse coisa sempre por acabar, o que sucedera também com o Adão e a Eva do _Breve Sumário da História de Deus_ que Nuno Carinhas encenara anos antes. No seu humor e no seu método, o espectáculo era, aliás, _tão Nuno Carinhas_, apesar de ter sido partilhado com Cristina Carvalhal. “O quê com letra maiúscula?” Era tão dele, precisamente por ser partilhado, não fosse a palavra _partilha_ um termo-chave do seu léxico enquanto artista. Há um ano, reencontrei a porta de _Exactamente Antunes_ na _Fé_ vicentina com que Nuno Carinhas se despediu do TNSJ como director artístico. Gosto tanto desses reencontros: do carro de mão d’_Os Gigantes da Montanha_ que, 15 anos depois, reaparece no _Breve Sumário da História de Deus_; do casaco do artilheiro de _Tambores na Noite_ que regressa à frente da batalha n’_Os Últimos Dias da Humanidade_; desta porta por onde via então entrar pastores “atibobados” que, ignorando tudo, sabiam o principal: “El que pregunta ño yerra.” Saturados de memória, estes objectos tornam-se palimpsestos, como afinal o próprio corpo dos actores, sujeito a tantas reescritas. Lembram-me um poema de Brecht sobre as amolgaduras dos jarros de cobre e os cabos das facas usadas por muitas mãos – coisas “entradas no uso de muitos,/ muitas vezes alteradas, melhoram a sua forma e fazem-se saborosas,/ porque muito saboreadas”. Por razões de segurança, as portas de um teatro abrem sempre para fora. Portas como esta, contudo, abrem para dentro, para essa zona de acesso reservado a que chamamos _íntimo_ e onde, por vezes, conservamos de um espectáculo de teatro, por muito e muito tempo, um sinal apenas – ou uma palavra. “Guarda-a bem, meu amor, e ela guardar-te-á a ti.” *Dramaturgista, professor. _ **17 Março – 17 Abril 2011** **Teatro Nacional São João** ## **_Exactamente Antunes_** de **Jacinto Lucas Pires** a partir de _Nome de Guerra_, de **Almada Negreiros** encenação **Cristina Carvalhal, Nuno Carinhas** produção **Teatro Nacional São João** _ in **_O Elogio do Espectador:_** **_100 espetáculos, 100 testemunhos, 100 fotografias_** **Cadernos do Centenário | 1** _ fotografia **João Tuna**
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