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Gil Vicente, nosso contemporâneo

Gil Vicente, nosso contemporâneo
_Tu me sondas, Senhor, e me conheces./ […] Nada de mim te é estranho._ Salmo 139, mudado para português por Herberto Helder É preciso vir a Portugal para conhecer Gil Vicente, é preciso saber português para o ler. Espanta-me a ignorância que existe no meu continente sobre o génio português, julgo que apenas uma vez o vimos no Chile, no festival internacional Santiago a Mil, onde a actriz Maria do Céu Guerra (A Barraca) levou o _Pranto de Maria Parda_. Sim, encontramos em Gabriel García Márquez uma epígrafe logo no princípio da sua _Crónica de Uma Morte Anunciada_, “La caza de amor es de altanería”, frase retirada da _Comédia de Rubena_, que parece ligar o destino desta à protagonista Ángela Vicario. Entre os vários espectáculos que Nuno Carinhas encenou para o Teatro Nacional São João, fazendo de Gil Vicente nosso contemporâneo, escolho _Breve Sumário da História de Deus_, do qual guardo belas recordações… Em geral, é fácil esquecer, é mais difícil recordar, e neste processo de evocar imagens deverei citar outras que me acodem agora, neste instante, enquanto escrevo. A encenação colocou o texto num espaço de muitas referências históricas/teatrais e naquela que é, talvez, a mais marcante para o povo judeu, o Holocausto, Auschwitz; ou num outro lugar concentracionário, sala de espera, _huis clos_, a espera de uma possibilidade de escape e libertação. As personagens deste _Sumário_ (espectáculo que não foge ao significado desta palavra, congregadora alternadamente de hierarquização e resumo) esperam, como nas danças macabras, pelo acto e pelo momento da palavra, “o lugar do verbo fundador”, diria Nuno Carinhas. “A tradição é a língua, a eternidade através da palavra.”**1** Gil Vicente adicionou a este género algo que faltava aos jogos da dança macabra da Idade Média, o _agôn_, fazendo assim do género antidramático um verdadeiro momento de exposição e combate. A ele devemos, ainda, a introdução do momento cómico, do elemento sarcástico ou irreverente que ajudou a humanizar a galeria das personagens expostas; “de auto em auto, lá desfilam todos e a tratar de tudo. Figuras celestes, as mais sublimes, e retratos terrestres, os mais comezinhos, dignos ou risíveis; […] Deus faz-se história porque encarna, sabia-o Gil Vicente; […] Tudo fica breve, porque mais seria excesso. Tudo fica dito, porque basta para entrever”.**2** Espectáculo de uma belíssima luz solar e crepuscular que, como num rito (“missa _en abyme_”, como lhe chamou oportuna e lucidamente Pedro Sobrado), convoca as múltiplas características do autor, unindo, através da têmpera cálida da luminosidade, o profano e o carnal com o religioso. Comungo desta representação, que me devolve a estatuária e a imaginária religiosas da minha infância, nos altares altos que olhamos de baixo, os movimentos rígidos, parados no tempo, mas as lágrimas transparentes deslizam, brilhantes, e os olhares que nos seguem, palpitantes, devolvem-nos a ilusão da vida. Tanto em Bruges, perante a cápsula que guarda o Sangue de Cristo, como na casa de Anne Frank, eu, intruso visitante dos sítios recônditos nos quais os seus moradores secretos se escondiam, senti uma emoção imensa, difícil de explicar. Talvez ainda esteja na rua a árvore que havia de ser a primeira testemunha desse drama… Emoção similar me ocorreu neste _Breve Sumário_ e, sobretudo, nas cenas finais, no momento da _Via Crucis_: o jovem Cristo (Daniel Pinto) girando com a cruz sobre os ombros, contrariamente à linha ascendente que me habituei a ver nas representações dos mistérios da minha infância. Este Cristo jovem parte rodopiando para o seu destino inexorável e libertador, porque o Mundo é redondo, girando, girando sempre, um _ilinx_ embriagador, quase numa alegria escondida ao encontro do Padre Eterno, para salvação da humanidade. Termino como comecei, citando o Salmo 139: “Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,/ dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.” **1** Armando López Castro, “Gil Vicente y los refranes”, in _Voz y letra: Revista de Literatura, Vol. 6, n.º 1, 1995. **2** D. Manuel Clemente, “O arco em que tudo acontece”, in Manual de Leitura de _Breve Sumário da História de Deus_, TNSJ, 2009. *Encenador. _ **20 Novembro – 20 Dezembro 2009** **Teatro Nacional São João** **_Breve Sumário da História de Deus_** de **Gil Vicente** | encenação **Nuno Carinhas** | produção **Teatro Nacional São João** _ in **_O Elogio do Espectador:_** **_100 espetáculos, 100 testemunhos, 100 fotografias_** **Cadernos do Centenário | 1** _ fotografia **João Tuna**
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