ENTREVISTAS | TODOS OS QUE FALAM

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Todos os que Falam, uma s茅rie de entrevistas sem pressa com quem conhece, pensa e faz teatro.

PEDRO MEXIA
Pedro Mexia tivera j谩 algumas experi锚ncias na escrita de textos breves para teatro, mas foi com o convite do Teatro Nacional S茫o Jo茫o para escrever uma pe莽a original que o escritor e cr铆tico liter谩rio se estreou oficialmente como dramaturgo. Nascido nos anos 70, teve o imagin谩rio sueco t茫o presente na sua inf芒ncia que acabou por vert锚-lo muitos anos mais tarde, agora, numa pe莽a de teatro.

Mas Su茅cia n茫o 茅 sobre a Su茅cia, que, ali谩s, nunca visitou. Su茅cia 茅 sobre a ideia de um para铆so democr谩tico, que lhe interessava questionar. F谩-lo por interm茅dio de autores como August Strindberg, Ingmar Bergman, Susan Sontag ou Gunnar Ekel枚f, nos quais encontrou inspira莽茫o e que vai citando ao longo do texto. Mas, embora a discuss茫o ideol贸gica e pol铆tica esteja sempre presente, s茫o as rela莽玫es humanas que sobressaem na obra que agora estreou no palco do Teatro S茫o Jo茫o e sobre a qual discorre neste terceiro epis贸dio de Todos os que Falam. Expostas atrav茅s de um dia de casamento, as rela莽玫es entre pai, m茫e, filha, ex-c么njuges, noivos, ex-namorados ou amigos s茫o mediadas na pe莽a pela literatura. N茫o tivesse o autor, como o pr贸prio explica, uma rela莽茫o liter谩ria com o teatro, que define como um g茅nero liter谩rio de palco.

Nesta conversa com o editor e escritor Rui Manuel Amaral, Pedro Mexia deixa, talvez, a descoberto o tema para uma pr贸xima pe莽a: questionar, como Pilatos, o que 茅 a verdade. A inspira莽茫o encontra-a em Pirandello, uma das suas refer锚ncias teatrais, a par de Strindberg, Beckett e Tch茅kov.

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FRANK CASTORF
Entre 1981 e 1985, ainda antes de tomar as r茅deas da Volksb眉hne, em Berlim, Frank Castorf foi diretor do pequeno teatro de Anklam, no leste da Rep煤blica Democr谩tica Alem茫. Otelo, uma das suas primeiras encena莽玫es, foi acompanhada de perto pela Stasi: a pe莽a 鈥溍 t茫o ofensiva para Shakespeare como para o p煤blico鈥, lia-se nos relat贸rios secretos da pol铆cia pol铆tica. Ou ent茫o, segundo a formula莽茫o do teatr贸logo americano Marvin Carlson, t茫o provocat贸rio para o establishment est茅tico como para a elite pol铆tica.

Antonin Artaud j谩 nos avisara: 鈥渄esde que a peste assenta arraiais numa cidade, todas as formas estabelecidas se desintegram鈥. Em dezembro passado, quando trouxe a Portugal e ao S茫o Jo茫o Bajazet, Considerando o Teatro e a Peste, Frank Castorf dizia-nos que 茅 鈥減reciso fazer arte com uma brutalidade tremenda鈥, que 鈥渙 teatro 茅 uma for莽a mal茅vola e independente, que possui algo de demon铆aco, que tem de ser sempre resistente鈥, uma declara莽茫o de inten莽玫es por demais sancionada pela sua particular leitura das obras de Racine e Artaud, com Pascal e Dostoi茅vski, em Bajazet. 鈥淎 mim interessa-me juntar as coisas que supostamente n茫o t锚m rela莽茫o. O nosso mundo 茅 mesmo assim. O que mais gosto 茅 de descobrir a disson芒ncia, o que n茫o combina.鈥 Nessa semana, sobravam os adjetivos ao jornal P煤blico: 鈥渂rutal, violento, lascivo, belo e perturbador鈥.

Neste segundo epis贸dio de Todos os que Falam: rude como 鈥渦m filho malvado鈥, mas com a ingenuidade de uma crian莽a que apenas diz que o rei vai nu, se o rei vai nu.

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G脕BOR TOMPA
Tempos 鈥渆stranhos, absurdos鈥. O atual presidente da Uni茫o dos Teatros da Europa recorda como os anos 80 da Rom茅nia de Ceau葯escu definiram 鈥渁 poesia do teatro鈥 de toda uma gera莽茫o de encenadores, antes da viragem democr谩tica no pa铆s e da pr贸pria chegada de Tompa ao Teatro H煤ngaro de Cluj, institui莽茫o que ainda hoje dirige. 鈥淪e algu茅m dissesse 鈥榥茫o h谩 carne no talho鈥 numa com茅dia, as pessoas faziam uma ova莽茫o.鈥 Na tradu莽茫o portuguesa da 鈥減artitura musical鈥 que leva 脿 cena do S茫o Jo茫o neste 7 de mar莽o distingue 鈥渦ma sonoridade muito especial鈥. Sublinha que as pe莽as de Beckett n茫o s茫o sombrias, 鈥渟implesmente dizem que n茫o h谩 um caminho f谩cil, que temos de continuar a caminhar鈥, ecoando a resposta do poeta h煤ngaro J谩nos Pilinszky, a quem um dia ter茫o perguntado sobre as suas esperan莽as na vida: 鈥淓spero vir a conseguir morrer, porque, at茅 ver, toda a gente conseguiu.鈥