Metamorfose e mem贸ria

ISABEL MORUJ脙O*

A flor do amor-perfeito acompanha os espectadores de teatro. O seu efeito, tal como sabia Oberon em Sonho de Uma Noite de Ver茫o, de Shakespeare, leva aquele que recebe o seu suco nas p谩lpebras a apaixonar-se pelo primeiro ser que vir, ao abrir os olhos. 脡 tamb茅m muito esta a magia do teatro: seduzir-nos pelas primeiras palavras, prender-nos aos primeiros corpos que d茫o voz e vida aos conflitos e dramas da Humanidade de todos os tempos.

Alma imp么s-se-me como um estranhamento, com as palavras iniciais de Miguel Loureiro, que resgatavam da mem贸ria do mundo liter谩rio um introito que substitu铆a com inexced铆vel vantagem o pr贸logo vicentino de Santo Agostinho, que sintetiza o assunto do auto e orienta a sua descodifica莽茫o enquanto alegoria, logo de in铆cio. Esta voz inaugural trazia-me a mem贸ria quase genes铆aca da cria莽茫o, com uma personagem nova e desconhecida, de estatuto inicialmente indefinido, que pela palavra (re)criaria a alma, num mundo j谩 ca铆do. 鈥淰amos a ver se te levanto鈥, dizia a voz, 鈥渧amos a ver se pode ser鈥, 鈥渧amos a ver se eu te crio鈥濃 Era a voz demi煤rgica do encenador, em un铆ssono com a de Nem茅sio e com a de Deus, num Fiat imenso, a levantar o mundo. Atrevo-me a chamar personagem-texto a essa personagem que, extrapolando a pe莽a vicentina, nela se entrincheirava como posto de vig铆lia e dava origem 脿 a莽茫o, ao mesmo tempo que convocava outras vozes po茅ticas que, convergindo com a de Vicente, lhe conferiam intemporalidade. Deambulando entre seis corpos masculinos deitados em posi莽茫o semifetal, a personagem-voz deteve-se e, baixando-se, apanhou um punhado de terra. Adivinhei ent茫o, sob as duas paletes de madeira alinhadas lado a lado na cena ainda envolta em penumbra, essa terra que ainda n茫o percebera, mas que a palavra po茅tica anunciara j谩: 鈥淣a minha lama azeda e quente/ crias a tua forma.鈥 De seguida, avan莽ando para a palete 脿 esquerda do espectador, a mesma personagem-voz tocou a m茫o de um outro corpo isolado, que a铆 jazia, e animou-o. E eis que, na luz que se acendeu em palco, uma alegoria de cinco s茅culos se expressava aos nossos olhos de agora, na pele de uma maratonista que marchava em fato de treino, porque 鈥減lanta caminheira鈥. Simultaneamente, os seis corpos da direita tamb茅m se erguem (s茫o anjos, afinal!), multiplicando exponencialmente a prote莽茫o singular prevista por Vicente. Caminhando juntos com Alma (num tempo marcado por f么legos de esfor莽o e passos que ecoavam em n贸s mem贸rias de tropas e de lutas), acompanhavam-na na sua corrida de fundo, ora cansada, ora tentada, de novo resgatada para o encontro salv铆fico, numa tens茫o escatol贸gica entre o 鈥渏谩鈥 e o 鈥渁inda n茫o鈥, expressa plasticamente no gesto v谩rias vezes reiterado das m茫os da Alma e do criador, que se atraem e buscam, mas n茫o se tocam. Momentos que convocavam no corpo em cena um di谩logo que transcendia todos os espa莽os e tempos, e que, fixado intemporalmente por Michelangelo na Capela Sistina, ali se replicava. E toda a sala se tornava ent茫o, por momentos, capela, irmanando atores e espectadores nesse intervalo da espera, que impede a unidade.

Fui ver Alma tr锚s vezes, fascinada pela encena莽茫o, pela representa莽茫o e pela beleza surpreendente do texto vicentino animado pela voz em cena. O saial vermelho que o diabo tentador ofereceu 脿 Alma 茅 e foi um 铆cone da pe莽a. As dobras, voltas e la莽adas que o diabo lhe deu, adornando com ele a Alma seduzida, foram gestos de coreografia pura. Mas guardo tamb茅m, ainda hoje, impressivamente, a imagem da Alma no final da caminhada, metamorfoseada em Cristo na Paix茫o e, finalmente, materializada numa pietas, corpo morto nos bra莽os do Anjo que a sust茅m e acompanha, e de que se libertar谩 em dire莽茫o ao Homem Novo.

鈥淪e se pudesse dizer [鈥/ se se pudesse fazer/ podermos ver!鈥, suplica o desejo que brota na prece do texto vicentino e que o espet谩culo acende numa intensa realiza莽茫o em coro. Ora n茫o 茅 o teatro esse privilegiado lugar para se olhar e ver? Alma pingou nos meus olhos o col铆rio do amor-perfeito.

*Professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tradutora.

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9 Mar莽o 鈥 1 Abril + 12-28 Abril 2012
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

Alma

de Gil Vicente
encena莽茫o Nuno Carinhas
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

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fotografia Jo茫o Tuna