No olho do furac茫o

CATARINA LACERDA*

Relva sint茅tica. Uma mesa de jardim. Um guarda-sol. Tr锚s corpos.
Nada fazia adivinhar o vendaval.
Na mem贸ria que me cunha, e 茅 a partir dela que convoco e reconstruo a experi锚ncia, nada 茅 objectivo e linear. Tudo est谩 e estar谩 impregnado de espanto. Ter谩 laivos pontuais de 锚xtase e peda莽os de ideias levantadas, cuspidas e deixadas ao acaso. N茫o h谩 harmonia nem concerto.
Apenas o lastro do furac茫o.

Poderemos intuir que o teatro rasgou, fulminado; que o corpo explodiu para al茅m dos limites vis铆veis da pele; que o c茅rebro expandiu cosmos afora, devolvido 脿 mat茅ria.

Est谩vamos a 25 de Junho de 2009.
Talvez eu n茫o estivesse pronta para o que aconteceu.
Ou talvez estivesse desde sempre pronta para o que aconteceu.
Falamos de desejo, sim.
De inspira莽茫o, por certo.
De transforma莽茫o e ressignifica莽茫o, muito.

Estamos a 25 de Junho de 2009.
Provavelmente chego em cima da hora. Muito provavelmente sento-me esbaforida. Certamente ou莽o 鈥淏em-vindos ao Teatro bl谩-bl谩-bl谩鈥.

Um homem e uma mulher, pelos 35 anos, de contornos esguios e firmes, descal莽os, reproduzem gestos quotidianos. Cita莽茫o do universo Barbie e Ken.
Outro homem, pelos 60, de contornos fl谩cidos, vem 脿 boca de cena. Veste apenas uma cueca XXL branca.
A velhice 茅 um vexame鈥 鈥 penso.
Tremor: Quem disse ISTO!? A-velhice-茅-um-vexame?! Como assim!? QUEM disse ISTO?!

S煤bita e intensa vergonha alheia do que me ocupa, pequeno momento em que sou confrontada com e engolida pelo inesperado. Eu, Catarina, em 2009, territ贸rio f铆sico e mental colonizado pelo ide谩rio Mattel. Lindo鈥 que vergonha鈥

Fr谩gil e seguro, alheio a tudo isto, ele, o velho int茅rprete que me confronta e vexa, na integridade seminua da sua presen莽a, permanece tranquilo e consciente, convidando-me a outras geografias.
Eu, tentando manter-me 脿 tona do preconceito, sigo-o como posso, encandeada pela cueca XXL.
Ou莽o frases sobre a perda e o ganho, sobre a vida vivida e a vida desejada, sobre ascens茫o, miragem e decl铆nio.

Algures, o homem de corpo esguio investe numa sequ锚ncia de ch茫o que o afasta do estado humano, transformando-se numa esp茅cie de semi-humano-verme-ser-qui莽谩-intra-uterino. O virtuosismo da t茅cnica ante a simplicidade do gesto 茅 impressionante. Mais do que impressionante, magn茅tico, a minha cervical inicia pequenos movimentos emp谩ticos. A voz do narrador transforma-se em m煤sica de elevador.
Debato-me agora com o 铆man daquele corpo, algures entre o des-re-membrado, e sinto-me estranhamente pr贸xima. Fulgor.

Talvez eu esteja j谩 descal莽a sobre a relva sint茅tica.
Talvez este tenha sido o in铆cio de um v贸rtice, de uma epifania, de um vislumbre.

Juventude e velhice. Passado, presente e futuro. Mem贸ria e fic莽茫o. Sint茅tico e org芒nico. V铆scera e forma.
A partir de agora, estamos no olho do furac茫o.
Os objectos, as presen莽as e as ideias projectam-se em miragem.

A verticalidade como um permanente recome莽o
Desejo e colapso
Beleza e imperfei莽茫o
O ch茫o como eterno retorno
Queda e voo e voo e queda e queda e voo e voo e queda e queda e voo
Corpos que discursam
Ideias que pulsam
Corpos-ideias que vibram
Precip铆cio
Sil锚ncio
Nascimento e morte
Devir
Choro e 锚xtase
Sagra莽茫o da Primavera
A integridade de quem dan莽a o fim do mundo em cuecas
Como莽茫o
Encontro
Corpo 鈥 embate; corpo 鈥 colo; corpo 鈥 boca.
Bocas
Boca 脿 boca. Reanima莽茫o.
Beijar-te-me-nos
A viol锚ncia do afecto
A viol锚ncia do desejo
A viol锚ncia da rotina
Mecaniza莽茫o.
Corpo-objecto
Corpo-puls茫o
Brinde
Busca
Luz
Come莽o
N茫o me lembro de como Le Jardin terminou.
Talvez nunca tenha terminado.
Talvez tenha sido somente um princ铆pio.
Simult芒neo black out e clar茫o.

*Atriz, encenadora.

_

*25 Junho 2009
Teatro Carlos Alberto

Le Jardin

coreografia e produ莽茫o Peeping Tom | Ciclo Dancem!09 _

in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

_

fotografia Jo茫o Tuna