‚ÄúTudo o que eu consigo ouvir dentro da minha cabe√ßa‚ÄĚ

C√āNDIDO ARA√öJO*

A pe√ßa O Resto J√° Devem Conhecer do Cinema, apresentada no Teatro Nacional S√£o Jo√£o, foi para mim, sem qualquer d√ļvida, de entre as muitas em que marquei presen√ßa, deveras marcante.

Convir√° dizer, antes de entrar propriamente nas raz√Ķes que me levaram a escolher esta pe√ßa, que, como gosto muito de teatro, frequento com alguma regularidade o Teatro Nacional S√£o Jo√£o.

Acontece, porém, que a partir de 1983, mesmo mantendo a frequência possível, deixei de poder apreciar as peças como gostaria pelo facto de ter perdido a visão.

A partir dessa altura, antes de cada representação a que assisto, esforço-me por tentar reunir toda a informação disponível sobre a mesma, por forma a obter o melhor acompanhamento e compreensão da peça. Mesmo assim, reconheço que muitas vezes o meu esforço foi inglório, tendo acabado por sair da sala com um certo sentido de frustração.

A alteração qualitativa, a mudança que felizmente veio alterar a situação narrada, ocorreu com a relativamente recente implementação da áudio-descrição. Foi a partir desse momento quase mágico que novas perspectivas se abriram para todos quantos, como eu, por serem cegos, se viam privados de tirar o melhor partido dos espectáculos a que assistiam.

Feita esta breve introdução, quero principiar por afirmar que a peça O Resto Já Devem Conhecer do Cinema, além de primar pela excelência, facultou aos espectadores cegos uma magnífica áudio-descrição, o que me permitiu acompanhar o decurso da representação quase como nos tempos em que via. E digo quase, pois facilmente se compreenderá que por melhor que seja a áudio-descrição, como aconteceu neste caso, será absolutamente normal que, em relação a um espectador normovisual, se verifiquem sempre algumas perdas de pormenores.

Quanto à peça em si, leva-nos a reflectir sobre a actualidade, sobre o tempo em que vivemos, o qual, sob determinados pontos de vista, pouco difere da época em que aquela família foi atingida por tudo o que de pior poderia acontecer-lhe.

A partir da trag√©dia grega Fen√≠cias, o dramaturgo ingl√™s Martin Crimp escreveu uma pe√ßa que descreve a hist√≥ria de √Čdipo, que amaldi√ßoa os seus filhos, Et√©ocles e Polinices, dando-lhes a governa√ß√£o da antiga cidade de Tebas.

Embora apropriando-se da tragédia grega e, consequentemente, de uma cidade dominada pela violência e pela intriga, pela falta de carácter e de honra, pelo fratricídio, pelo incesto e, de uma forma geral, por tudo quanto é falta de valores, o autor pretendeu chamar-nos a atenção para o facto de nada ter mudado ao longo dos vários séculos, desde a época em que se situam os acontecimentos iniciais até aos nossos dias.

Na realidade, sem nunca perder de vista o original, a peça, escrita em 2013, questiona o rumo da sociedade actual através de um teatro interventivo, de grande consistência, diria mesmo bastante duro, com uma presença constante da violência, que nos inquieta, que nos faz pensar. Desse ponto de vista, creio que a peça atingiu completamente os seus objectivos. No caso da representação a que assisti, mercê do extraordinário trabalho de todos os actores e de uma encenação competente.

  • Espectador.

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27 Mar√ßo ‚Äď 14 Abril 2019
Teatro Nacional S√£o Jo√£o

O Resto J√° Devem Conhecer do Cinema

de Martin Crimp
encenação Nuno Carinhas, Fernando Mora Ramos
produção Teatro Nacional São João
colaboração Teatro da Rainha _

in O Elogio do Espectador: 100 espet√°culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen√°rio | 1

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fotografia Jo√£o Tuna