A ilha em obras? Ou o teatro em obras?

Ant贸nio Dur茫es*

Por aqueles dias, este espectador andava com os tost玫es contados. 脡 essa, regra geral, a sina do espectador que, em simult芒neo, 茅 tamb茅m actor, mais ainda se est谩 em in铆cio de fun莽玫es na segunda qualidade.

Al茅m disso, por aqueles dias, vivia e trabalhava em Braga, numa esp茅cie de ex铆lio feliz.

At茅 que, um dia, chegou a informa莽茫o de uma Tempestade num antigo Cine-Teatro entretanto adquirido pelo Estado, e que estava prestes a ceder o seu corpo 脿 engenharia, quase a entrar em obras, depois de um longo per铆odo de encerramento, para se transformar em Teatro Nacional. Tratava-se de uma produ莽茫o 鈥渄a casa鈥, com gente principalmente do Porto que, apesar de estar t茫o pr贸xima, eu apenas vagamente conhecia.

Simultaneamente, por aqueles dias, vinham a Braga, a um congresso de literatura, um grupo de amigos ao lado de quem cresci, professores em in铆cio de carreira e espalhados pelo pa铆s que, aproveitando a ocasi茫o, matavam saudades uns dos outros 脿 boleia desse congresso, e eu com eles, mesmo que trabalhando noutra depend锚ncia da vida.

Foram dias gloriosos, eu cicerone bracarense e eles a deixarem-se guiar. Na qualidade de cicerone, propus uma ida a essa Tempestade portuense, curioso do espa莽o, do espect谩culo, do projecto. Algu茅m comprou os bilhetes. Os mais caros da minha vida at茅 ent茫o, pobre actor confrontado com os sal谩rios dos meus amigos professores. E a minha experi锚ncia enquanto espectador do Teatro S茫o Jo茫o come莽a aqui.

O teatro estava esgotado. Ou parecia. Entr谩mos e a primeira impress茫o que guardei foi a da profundidade dos tapetes. Estranhei a maneira como os p茅s desapareciam no tapete alto, quase uma massa l铆quida que os p茅s penetravam at茅 encontrar um outro ch茫o, mais s贸lido, por baixo daquele. Um territ贸rio quase pantanoso, feito n茫o de areias mas de p锚los movedi莽os, que amea莽ava engolir-nos inteiros, depois de quase ter feito desaparecer os nossos p茅s.

E, de repente, no meio de n贸s, quando ainda est谩vamos a tentar n茫o ser devorados pelo fam茅lico tapete, alguns dos actores, nos seus figurinos: n贸s na lassid茫o da espectativa; eles na fervura da actua莽茫o. Algu茅m transportava t谩buas. Creio que era isso. O que indiciava obras, algures. A ilha em obras? Ou o teatro em obras? Sei que a zona dos camarins j谩 era uma esp茅cie de estaleiro, mas essa zona estava-nos vedada, soube-o apenas mais tarde.

Conhecia os actores de outras fichas t茅cnicas, mas s贸 isso. Admirava-lhes a resist锚ncia, media-me com eles, cada um no seu mundo de periferias, eu mais perif茅rico ainda.

Lembro-me de um enorme lustre descer e percorrer, voando, um peda莽o grande do palco e, creio mesmo, da sala, como um enorme bota-fumeiro, mas de luz鈥 O teatro como uma grande catedral, pelo menos 茅 essa a mem贸ria que tenho鈥 E lembro-me, sobretudo, de Ariel. Que gesto. A minha mem贸ria est谩, ainda hoje, repleta de imagens que me chegam dessa personagem. E que personagem. Que recorte. Uma criatura multiplicada por n茫o sei quantas criaturas que respondiam como se apenas de um corpo se tratasse, um sistema nervoso central que chegava a todas aquelas figuras muito brancas, as cabe莽as depiladas (calotas, creio), que potenciavam fantasticamente o efeito c茅nico. Organizava-se num dispositivo f铆sico fantasmag贸rico, ora olhando para um 煤nico ponto, ora mudando a direc莽茫o do olhar, pulverizando essa direc莽茫o, como se estilha莽ando o olhar da personagem, dividida em tantas aten莽玫es e desaten莽玫es. E a voz ciciada, sussurrada quase, um mist茅rio potenciado pelo segredo que partilhavam, mostrando e, ao mesmo tempo, escondendo uma publicidade que, querendo exibir o falado, o retinha num espa莽o pr贸ximo, obrigando-nos a apurar a audi莽茫o, a aproximar a cabe莽a do multi-emissor daquela fala, a guardar as nuances, a elocu莽茫o das v铆rgulas, das suspens玫es, dos finais exclamados, de uma maneira que n茫o esqueci, apesar de todos estes anos terem passado. Corpos juvenis vestidos de vermelho ou bordeaux, cabe莽as brancas explodindo nos movimentos que a Olga Roriz inventou e organizou para eles. O gesto repetido muito desenhado, ecos do gesto original, mesmo quando explodiam para as vozes das outras personagens, as amplificavam, enfatizavam, retiravam e recolocavam em foco. Extraordin谩rio.

E, claro, Ruy de Carvalho, sobre quem todas as aten莽玫es reca铆am.

Mas, para mim, foi Ariel quem ficou, de forma mais impressiva, a perfumar-me os sentidos at茅 hoje (茅 engra莽ado como performar pode confundir-se, no som, com perfumar). Sem menosprezo, imposs铆vel ali谩s, pelo virtuosismo de todos os outros actores que, mais tarde, conheci, admirei e admiro.

*ator, encenador.

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16 Novembro 鈥 23 Dezembro 1994
Teatro Nacional S茫o Jo茫o

A Tempestade

de William Shakespeare
encena莽茫o Silviu Purcarete
produ莽茫o Teatro Nacional S茫o Jo茫o

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in O Elogio do Espectador: 100 espet谩culos, 100 testemunhos, 100 fotografias Cadernos do Centen谩rio | 1

fotografia Manuel Gomes Teixeira